quinta-feira, dezembro 11, 2008

Cecília

Cecília entrava na casa dos trinta. Acordou tarde pra enganar o dia, mas o calendário pregado na porta do quarto denunciava em vermelho que aquele era, de fato, mais um aniversário seu. No espelho do banheiro tinha refletido um rosto pálido, murcho, manchas saltando aos olhos, uns fios de cabelo já brancos. Acendeu um cigarro, deixando no ar mais turvo a sua imagem mais deprimente.

Não tirou o pijama. Não se lembrava, mas a peça fora presente do aniversário de dezoito. Tirou nem meias e as arrastava pelo piso laminado de madeira que lhe havia custado as economias dos últimos anos, única decoração do apartamento de sexto andar que habitava desde os dezoito.

Cecília só fez um café. Forte, ao menos. E o combinou com outro cigarro. Longo, Plaza. Curto, não sabia fumar até o filtro. Apagou na pia da cozinha, a guimba flutuando na louça suja amontoada.

Jogou-se, primeiro no sofá. Depois na rede, também de novo na cama. Levantou só pra checar se o telefone estava mudo, se a secretária eletrônica havia pifado, se o interfone do prédio funcionava, se o celular ainda tinha carga. Tudo em ordem, então, jogou-se outra vez, rede cama sofá novo Plaza entre os dedos.

Cecília mal teve namorado, assim como dinheiro, prazer, sucesso ou conquistas, tirando o piso laminado de madeira. Tirando o Márcio, quem a presenteou com o pijama pouco antes de sumir com o mágico do circo que passara alguns meses na cidade. Tirando o emprego de assistente administrativo na prefeitura desde os dezoito e os dois maços diários de Plaza. Tirando o piso laminado de madeira.

Amigos não teve mesmo. Filhos, família, inda menos. Isso tanto que fazia trinta e ninguém ligara ou tocara à porta. Tirando o grupo de testemunhas de Jeová, ninguém chamara ao interfone naquele dia.

Fumou outro cigarro e, por fim, jogou-se, primeiro no sofá. Em seguida na rede e de volta à cama. Depois da janela, cuidando pra que não arranhasse o piso com o pulo.

(Agnieska, vulgo Sofia Giambarba)

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