Domingo, Junho 28, 2009

Lucidez em surto, vinho e linhas corridas

É humano duvidar da sabedoria da vida. Nos esquecemos dessa inteligência que rege nossos dias e antecipamos acontecimentos, sentimentos, buscamos pra ontem aquilo que nem hoje estamos preparados para receber.
Sonhamos demais, nos precipitamos; tropeçamos nos nossos próprios pés e as feridas que nos machucam os joelhos, muitas vezes, são um mal desnecessário. Nos submetemos às dores, procuramos por elas como masoquistas compulsivos. Não enxergamos um passo a frente do nariz e, ainda assim, somos os donos do mundo.
Só hoje percebo isso, tão tarde pra sanar algumas chagas. As minhas próprias ou as de quando fui eu o algoz.

Não falo isso como quem subestima o poder da dor. A vida, tirana porém destra, sabe escolher as feridas que nos tornam mais fortes e é a dor o maior antídoto para a prepotência humana.
Fortaleço a mente para o combate à impaciência, essa vilã maior.


Aos olhos baços, dou luz: vejo. E não encontro tudo o que preciso para receber o que espero da vida... E são faltas básicas, possíveis de se resolver, o que me faz entender que não há empenho em favor do objetivo, somente feridas superficiais atrasando o percurso.
Encorajo o espírito para o equilíbrio.
Preparo o meu espaço, que é a parte que cabe a mim; sirvo outra taça à mesa.
Confio à vida o tempo e o sucesso.

Sexta-feira, Junho 26, 2009

Sobre 'Um Conto de Ônibus'

'Um Conto de Ônibus': está aí o conto que nunca foi meu favorito, mas faturou dois prêmios nacionais, um no ano de 2007, realizado pela secretaria de cultura da cidade de São Sebastião do Paraíso, em Minas Gerais, e outro em 2008, promovido pela Fundação Cultural de Canoas, Rio Grande Sul.

Em Minas Gerais, a premiação foi um fiasco. Ganhei uma plaquinha e um certificado via correio, como prêmio de consolação. Nem ao telefone ganhei grandes explicações sobre a divulgação do conto no site da prefeitura - a organização do concurso se comprovava cada vez mais especializada em desorganização de concursos. Porém, na última seleção, Canoas cumpriu com todos os prometidos do edital e, agora, 'Um Conto de Ônibus' tem duas páginas na coletânea dos selecionados na edição do ano passado (categorias conto, poesia e crônica). Meu nome está lá, singelo, ostentando menção honrosa na categoria conto. Os cinco exemplares da publicação a que tive direito são, pra mim, como uma prova de que preciso vencer o medo da exposição e acreditar um pouco mais naquilo que faço com tanto prazer.

Mas, ok, se este conto não é meu favorito, por que o escolhi para os concursos? Na verdade foi por, na época, eu sentir que ele estava pronto, rendondo, com início, meio e fim bem encontrados e, principalmente, por ter ritmo próprio. Acho que é isso, a coisa do ritmo que agradou as duas bancas, porque não vejo nada de especialíssimo nele em conteúdo. Mas o ritmo sim: adoro ler, reler e ler outra vez - aos meus olhos e ouvidos, sem modéstia, este conto cai bem.

Pra quem ainda não leu, segue 'Um Conto de Ônibus' publicado no ultimo post deste blog, para apreciação (ou não, hehe), em espaço livre para julgamentos.

Sofia

Um Conto de Ônibus

Teve uma noite que preferiu dispensar a carona habitual e tomar um ônibus. Precisava ver gente, ouvir outras vozes, fazia tempo que não fazia absolutamente nada diferente. Era tudo do mesmo jeito, casa, carona, aula, cabelo, conversa, banho, sem tirar nem pôr coisa nenhuma, numa rotina inteiramente adequada ao padrão de vida e idade atuais. Via-se: uma avalanche de percepções que tão mal se ajustava ao cotidiano encaixotado em que estavam trabalho, sapato, tempo, leitura e afago seus; valores de ponta-cabeça; emoções contraditórias; era, sim, um grande amontoado de substantivos mais-que-abstratos. A solução para a dispersão, muitas vezes, encontrava na gente aparentemente menos atordoada, com preocupações supostamente condizentes com os seus cotidianos. A verdade é que não fazia bem a ela ver os problemas alheios, mas era um tratamento de choque indiscutível, algo como um puxão de orelhas bem dado ou como sentir amarrar-se a um peso que faria suas pernas tocarem outra vez o chão. Não que não tivesse suas próprias preocupações, tinha as contas do mês e as aulas de inglês, o cano quebrado no banheiro, a linha de telefone cortada quase toda vez e a chave de casa perdida. Mas nem a festa para a qual não havia sido convidada, nem o cobrador do aluguel, nem a despensa vazia, o cansaço, o pouco dinheiro, nada era suficiente para fazer ater-se aos problemas reais e nisso criava motivos para substituí-los: quando o cachorro morreu, aprendeu a fazer salgadinhos vegetarianos como ninguém; começou a estudar hebraico via internet assim que pifou o motor da máquina de lavar roupas; nos dias de trabalho chato conseguia pensar nos detalhes da viagem que faria um dia, sempre sem data prevista; e quando o namorado foi embora, preferiu fotografar.

Precisava era de um ônibus empanturrado de anseios comuns, gente cansada e suor.

Deu sorte que parou o mais cheio. Alguém logo se ofereceu para segurar a bolsa, gentileza comum entre passageiros de ônibus que para ela soou mais como um termo mudo de cumplicidade: esteja à vontade para observar. E assim esteve até seu cúmplice silencioso descer do ônibus, dando-lhe o lugar e um pouco mais de espaço naquela noite. Sentou-se. Ao seu lado, um rapaz com menos de vinte e sete, estudante talvez porque levava uma mochila e um ar despojado que se manifestava na combinação barba rala e camiseta estampada com motivos indianos. Nos olhos, no entanto, ele se mostrava sério, mas podia ser que estivesse na ala dos cansados e indispostos, assim como a maioria que ali estava, seguindo apático durante a viagem até que. Uma moça entrou, vestindo o uniforme da guarda da cidade, paradoxalmente pequena e frágil, dona de um loiro no cabelo que gritava com as raízes escuras expostas. Esta também levava uma mochila nas costas, porém a dela não lhe atribuía um ar jovial, mas se impunha com um cacetete que mal cabia inteiro dentro da bolsa.

Dispuseram-se, o rapaz da camisa indiana ao lado da janela, ela que havia dispensado a carona na cadeira do corredor e a moça guarda da cidade em pé bem na frente. Nessa viagem ela esteve no centro, separando os dois corpos, um pouco desconfortável, sem, porém, pensar em quão cômoda teria sido a sua carona. Deixou de existir a partir do primeiro encontro entre os olhos do rapaz da camisa de motivos indianos e os da moça guarda municipal.

Levantou da cadeira sem que rapaz nem moça percebessem sua ausência ou presença, puxou a cordinha, desceu do ônibus já em frente à casa. Da rua podia ver a cor azul da televisão tomando toda a sala. Ali se lembrou do banho, do tempo, do afago, do telefone cortado, dos olhos que se encontravam há pouco e deu sinal para outro ônibus.

(Agnieska)

Sexta-feira, Maio 29, 2009

Disturb the sound of silence

As vozes se calam lá fora. Não mais ruídos das casas; chamando na janela, nem cigarra. A lua muda traz consigo o silêncio e o põe pesado sobre nossas cabeças.

Só eu agora e caneta, em eventuais pequenos ruídos do arrastar de mão no papel ─ a noite não cala meu peito.

Pudera calar-me também, noite! Emudecer essa voz que me vem de dentro. Aninharia meu sono no seu vazio, e eu, pela primeira vez repleta de paz, dormiria pra sempre.

Sábado, Maio 02, 2009

Estranho

Não o conheço
Mas suas mãos se apresentaram às minhas
E eu não soube evitar o conforto
Destruindo cada camada da minha casca dura
de mulher independente, consequente,
Carente em desestrutura

Quando a gravidade de minh’alma
Dita por suas mãos tão grandes,
Fez cair pedaços de mim sobre mesa de bar
E eu, crua e nua,
Despida de mim na frente de todos
Escondia-me dentro de um gole de gin.

Tão péssima quando eu mesma!
E você chamaria isso de único?
Você, uma escola,
de percepção, aproximação,
Se diria sem lugar em lugar nenhum,
Enquanto suas mãos encontrariam abrigo
E o peso de suas pernas descansaria comigo

Além da linha que eu impus entre mim e qualquer um

Quarta-feira, Fevereiro 04, 2009

Descoberta (o título emerge das palavras maturadas)

A beleza como é
Vil companheira, esconde-se

em olhos de mulher, permanece

adormecida ― anos, décadas,
por vidas não se faz sabida,

Até, cedo, ou vez tarde,

Mostrar-se em sua forma plena:
Incontrolável, ensandecida,

Toma toda ela corpo e rosto de menina,
Modela graça, dá-lhe ares de felina,

Implode em desejo,
A nua carne contamina
sangue, pele, pêlo,

De maligna ternura.

Domingo, Dezembro 21, 2008

Cura

Salto, de um estado a outro, num

Pulo - foi mesmo assim,

Como se quebrasse um muro

(sem suor, medo, força),

Como se dormisse uma e despertasse outra

E logo e enfim, livre de mim,

Encontrasse Chama ainda,

Pequena e cintilante Brasa ardente,

E Cinzas, marcando trilha à frente.


Os anseios que encardiam, ontem, Cama e Alma,

Dormem.

Quinta-feira, Dezembro 11, 2008

Transitório, o Retorno

Mais uma vez abandonei o blog. São espasmos que me dão, vivo oscilante entre a vontade desesperada de escrever qualquer coisa e a preguiça incondicional. Creio que a fase atual (férias chegando, provável sol e pé prá cima) colabore para que eu recupere o meu fôlego de escrita (mmm... passar as férias de final de ano duranga em casa me parece realmente inspirador...rs).

Enquanto ela não vem (ela, a fase criativa), resolvi postar dois continhos, os quais mantinha há meses em um pen drive, transitando, diariamente, de bolso de calça jeans para estojo de lápis na bolsa ou compartimento de mochila. Pensava em melhorá-los ainda - final ali, início acolá, talvez uma porção menor de confusão nas histórias -, mas agora expirou a garantia do fabricante. Seguem original de fábrica, portanto, 'Cecília' e 'Tempo de um beijo só', este último produzido a partir de algumas percepções já postadas no mês de março deste ano ("não havia retrato no qual coubesse aquela manhã...").

Com o retorno, aproveitei para completar o perfil no blog com foto e pá-e-bola (que cara dura!). Não se assustem muito - se alguém passar por aqui e resolver dar uma espiadinha -, só achei que, depois de alguns anos de blog, chegava a hora de dar nome aos bois, ou melhor, cara aos bois. Na figura, a boiada inteira de uma vez: teo (de 'fábulas do teo') e eu.

E, claro, não podia deixar de comentar sobre a menção honrosa na categoria contos com o texto 'Um conto de ônibus' no concurso nacional organizado pela Fundação Nacional de Canoas - RS. Dessa vez - torçamos para que seja mesmo verdade -, parece que vai rolar uma coletânea com os selecionados do concurso e, adivinhem, eu tô nessa. Demais!rs

Bom, caríssimos, as observações, sugestões, críticas e xingamentos estão totalmente liberados, óbvio!

Grande beijo,
Sofia

Tempo de um beijo só

A luz do sol surgia, contrariando todos os desejos, sem conseguir dissipá-los. Do rosto mais claro pela manhã, era ela: mais moça, sabida de astrologia, um pouco também de fotografia; mais boba, mal escondia a ansiedade. Dos olhos confusos pela hora, estava ele: mais vivo, cabelo longo desalinhado pelo cansaço, sabia de roteiro de cinema ou de turismo; fios brancos na cabeça envolta por idéias pudicas e outras nem tanto.

Diferentes os dois, é provável, mas se ainda estavam ali juntos, àquela altura da hora, o tempo brigando com a conversa sem conseguir inibi-la! Sobre a copa úmida da castanheira que os abrigava só a luz de um sol recente, enquanto todo o chão da praça decorava-se das silhuetas dela, das folhas, dele, dos pássaros.

Na noite de antes daquela manhã, haviam se entreolhado desde o princípio: ela reparava no jeito meio sem jeito dele de dançar, ele não levava relógio; ela preocupava-se com as horas, mas ele a percebia dançando sozinha uma música alta demais na hora exata da noite. Teriam conversas tão altas e tão perto, não tinha outro jeito senão tão junto; seus rostos escurecidos ora clareando-se pelas luzes negras do lugar; os olhos, certamente, luminosos. Desde este instante falariam sobre o horário da noite, a música, a vida em geral, mas especialmente sobre a possibilidade de continuarem falando e olhando e assim tão junto e tão perto por algum tempo mais.

De vestido curto nem largo nem justo modelagem retrô e faixa nos cabelos, estava ela; ele, óculos de grau e calça com cinto metalizado estilo undergroud. Diferentes os dois, é possível, só que de lá sairiam juntos, não tinha outro jeito senão tão juntos, ou do contrário haveria o risco de perderem a hora certa daquela noite.

Do carro, um modelo nem novo nem velho azul-marinho como aquela madrugada, os dois passeariam cidade afora, apesar das diferenças entre eles, apesar do tempo: para início, cairiam num reduto de música duvidosa, mas a música, assim como a hora, havia perdido a importância; cortariam muitas ruas silenciosas, vez divagando histórias sobre a cidade adormecida, vez tão mudos quanto ela; até encontrarem abrigo no bairro mais boêmio, onde cada vez mais surgiriam histórias sobre a cidade ou sobre a vida pra contar — o universo, ela viria com essas definições sem sentido pra ele, seria o universo contribuindo para especializar o pouco tempo juntos.

Ali o dia viria regado às conversas mais íntimas, separações, profissões, desilusões, confissões e cerveja bem gelada. A luz, aos poucos tomando o espaço, enfrentaria os desejos, e os dois, já resignados com a hora, sairiam à praça a apreciar os pássaros que se multiplicavam com o raiar do sol. Nesta hora exata — o sol iluminando os rostos e a copa da castanheira desenhando no chão da praça contornos de folhas e corpos e pássaros —, nesta hora exata os dois já se conheciam tanto apesar do tempo e tão pouco pelas diferenças que ficou impossível de segurar. O beijo, que duraria só o tempo de o relógio rodar novamente, deixando a hora tão pequena que não houve jeito de.

(eu mesma, vulgo Agnieska)

Cecília

Cecília entrava na casa dos trinta. Acordou tarde pra enganar o dia, mas o calendário pregado na porta do quarto denunciava em vermelho que aquele era, de fato, mais um aniversário seu. No espelho do banheiro tinha refletido um rosto pálido, murcho, manchas saltando aos olhos, uns fios de cabelo já brancos. Acendeu um cigarro, deixando no ar mais turvo a sua imagem mais deprimente.

Não tirou o pijama. Não se lembrava, mas a peça fora presente do aniversário de dezoito. Tirou nem meias e as arrastava pelo piso laminado de madeira que lhe havia custado as economias dos últimos anos, única decoração do apartamento de sexto andar que habitava desde os dezoito.

Cecília só fez um café. Forte, ao menos. E o combinou com outro cigarro. Longo, Plaza. Curto, não sabia fumar até o filtro. Apagou na pia da cozinha, a guimba flutuando na louça suja amontoada.

Jogou-se, primeiro no sofá. Depois na rede, também de novo na cama. Levantou só pra checar se o telefone estava mudo, se a secretária eletrônica havia pifado, se o interfone do prédio funcionava, se o celular ainda tinha carga. Tudo em ordem, então, jogou-se outra vez, rede cama sofá novo Plaza entre os dedos.

Cecília mal teve namorado, assim como dinheiro, prazer, sucesso ou conquistas, tirando o piso laminado de madeira. Tirando o Márcio, quem a presenteou com o pijama pouco antes de sumir com o mágico do circo que passara alguns meses na cidade. Tirando o emprego de assistente administrativo na prefeitura desde os dezoito e os dois maços diários de Plaza. Tirando o piso laminado de madeira.

Amigos não teve mesmo. Filhos, família, inda menos. Isso tanto que fazia trinta e ninguém ligara ou tocara à porta. Tirando o grupo de testemunhas de Jeová, ninguém chamara ao interfone naquele dia.

Fumou outro cigarro e, por fim, jogou-se, primeiro no sofá. Em seguida na rede e de volta à cama. Depois da janela, cuidando pra que não arranhasse o piso com o pulo.

(Agnieska, vulgo Sofia Giambarba)

Domingo, Setembro 21, 2008

Escritos on the rocks sobre confusões com dois cubos de gelo

(História pra boi dormir)

Um gelo na espinha: são os nossos olhos que se buscam ― e se esquivam, ao mesmo tempo. E o sorriso, esse seu sorriso de canto da boca nos cafés da manhã, logo abaixo dos olhos ainda vermelhos do sono curto, logo acima do. Queixo, caído por você eu sei.

Não sei se sabem por aí. Finjo fingindo que não há nada, enquanto você finge ainda melhor do que eu, pois sou péssima mentirosa. Já você é bom nisso ― no quê mais? Suspiro. Fingimos juntos à toa se não há nada a esconder ― e o quê seria tudo? Quase nada, pra mim, é tanta coisa; meia dúzia, então, é mundo inteiro...

Fecha as portas do seu mundo enquanto é tempo, que eu ainda pretendo ficar de fora ― não sei se quero. Nem sei se devo, mas creio que devesse. Meu peito é que é bêbado, doente, cruel, traiçoeiro, e agora teima em apertar-me por dentro sem pena nenhuma.

Dor no peito é coisa pouca. Morria dessa dor, se deixasse. Muito pior é o espasmo. Ou a indiferença. Ruim mesmo é um ponto final mal colocado no texto ― ou seria vírgula? Sei dizer não, queria texto corrido cheio de pressa.

Olhos vendados eu queria, adrenalina pura, estrada comprida cheia de curvas eu queria, asfalto novo permitindo velocidade: gelo na espinha. Carona? Sozinha nessa me dou muito mal ― não tenho brevê de piloto, senso de direção muito menos.

Ouço a música alta da estrada, mas você dança o silêncio.

(...)

Canta pneu ou canto eu essa música que eu canto todo dia pra embalar você. Digo de mansinho, pedacinho em pedacinho, e você presta atenção em cada verso pra parecer que é ainda mais esperto no quesito coração. Salta ligeiro quando chego perto, só não sabe você, pobre sujeito, que certo mesmo é que eu perdi isso que se guarda no peito, e você que ainda o tem jovem é mais vítima que carrasco desta canção.

Mesmo assim, tem dó de mim... E segura meu canto nesse espaço vazio.

Domingo, Setembro 14, 2008

Apago

Apago
No sono.
Cansei de tentar,
Outra vez, cansei
Tem aí uma pílula de ânimo?
Coisa rápida
E quente, pode ser
Estou topando o que for
Cansei de esperar
Fazerem por mim
Gostarem de mim
Aceitarem, por fim, o meu tipo de
gente romântica
Doença maldita
Praga incurável
Apago
O cigarro
Acendo mais um, pra queimar
Caloria,
Arritmia,
Melancolia
E esse jeito de gente
Que arrisca a cabeça
Quando pode esconder
Apago, se pudesse
Apagava
De uma vez apagaria
Da cabeça essa idéia
Que me tira da cama
Então,
se der, outra vez,
Apago




Segunda-feira, Março 03, 2008

Não havia retrato no qual coubesse aquela manhã. A praça em que os dois estiveram era grande demais para uma foto. Pelo menos um dedo do colarinho do chopp de cada um deles ficaria de fora da figura. A criança na praça era muito ruiva, era lindíssima, e havia acordado tão cedo pra brincar com os pássaros que, provavelmente, acabaria de fora em uma fotografia só. Tudo ali, aliás, parecia muito maior do que poderia pintar. Se pudesse ter a foto da manhã, nada deveria deixar faltar, se sorriso ou vergonha, cansaço vencido, bocas ou caminho, do contrário haveria o risco de perder a hora exata do relógio que faltou na noite anterior.

Na noite de antes daquela manhã, a hora certa não tinha segundo nem minuto, porque já era tarde demais pra isso. Era uma hora cheia e muito maior do que esperava, mas não é possível estimar o momento exato em que o ponteiro parou. Já era noite demais, escuro demais, o bastante tarde pra voltar no tempo e não perguntar que horas poderiam ser.

Apenas poucos números e letras ficariam, soltos numa música alta demais na hora certa daquela noite, e nem mesmo os mais medíocres puderam se perder.

No seguinte veio o espanto, sem bruma, só susto, e se algum dos dois acabou se perguntando baixinho que coisa ali fazia, nessa hora exata o ponteiro do relógio que não existiu antes voltou a funcionar, deixando o tempo tão pequeno que não houve jeito da dúvida seguir ninguém.

O relógio rodou, mesmo sem convite pra essa história. Não houve tempo, então, ninguém tirou fotografia nenhuma daquela manhã. Cada quadro possível mas não feito, agora, aos poucos, teima em desaparecer por detrás dos olhos, atendendo aos apelos do tempo, soberano
.

Terça-feira, Janeiro 08, 2008

aqui, presos

Taí, passamos os dias em busca de alguém alguma coisa que nos faça sorrir e de quebra nos deixe descansar a cabeça nos ombros e às vezes ainda converse sobre um tempo futuro ou passado em que estivemos estaremos juntos. Mas não lhe parece boa pergunta a que questiona o porquê dessa procura se no fim das contas estamos todos presos em uma vida real nuclear individual particular e todo contato é só casca? Explosões internas só nossas isoladas por uma camada externa de nome corpo.

Segunda-feira, Janeiro 07, 2008

já não há muito

Já não há muito lá no fundo, depois de tudo, depois daquela dureza toda que foi um dia a vida. Depois do choro forte e de tirar a força sei lá de que parte da alma pra seguir assim, a incompatibilidade irrevogável sobrou como um consolo. E ainda ela, incompatibilidade amiga, agora que era graça, agora que era amiga, trai.

Ouça, não se deixe enganar por esse ser sociável que lhe fala. Daí de fora, dessa perspectiva, só dá pra ver de mim mais de todo mundo do que realmente o eu, porque eu-só vivo aqui dentro. Eu-estranho fico aqui só, na parte de dentro de mim, e não sei se há jeito de chegar até aqui.

Não sou especial de nada, porque quase não sobrou coisa pra ser assim depois de tudo, mas se olhar no fundo... ouça, se olhar bem no fundo dos olhos, um traço de faísca anúncia a incompatibilidade em risco. Logo agora que ela era graça amiga.

Ouço, ouço com clareza o que daqui eu digo pra mim mesma, pra me certificar de que escutei tudo o que preciso saber sobre o eu-só e não esquecer de quem sou realmente. Só não se deixe enganar por mim, oras! Se quiser, bagunça tudo o que sei, anda! Sei muito pouco sobre mim e o pouco que sei não faz sentido nenhum.

Eu já disse e ninguém acredita, inclusive eu já desacreditei disso também, mas sou duas pessoas em uma, a que vive a cara de todo mundo e a outra que só sai de dentro de mim pra morar aqui no papel.

Quinta-feira, Janeiro 03, 2008

Jogo da Criança Grande

Se topasse com o mesmo sorriso livre, branco, nobre como aquele que ganhei noite dessas,
As minhas aflições, num pestanejar, virariam bolas de gude em mão de criança,
E aí tanto faz se o jogo é à vera, ou se na brinca guarda todas elas como se fossem pequenos tesouros de vidro.

Terça-feira, Dezembro 25, 2007

Escrever

Parte I

"Só me resta escrever, já que não posso me livrar dos pensamentos, essa montoeira de questionamentos egoístas que me assola os dias; já que não encontro pra mim papel social de importância; se termino sempre fora das lutas humanas que valem a briga - porque não devo ter tino político ou de guerra, o que é uma das minhas verdades vergonhosas; já que não tenho utilidade que me dignifique com o mundo; só me basta escrever e tentar semear ao vento a minha parcela de dúvidas e agonias mais íntimas. Talvez assim o tempo vire, e a brisa retorne suave, algum dia"

Recuperação de um post "espertamente" deletado por mim.



Parte II

Tenho sido questionada com freqüência sobre o que (afinal!) escrevo, especialmente após a academia de Paris ter me concedido um prêmio (ahuahua...desculpem-me, é só uma pitada de autoflagelação). Das primeiras vezes não tive resposta pra dar – se não é possível considerar como resposta a cara de pateta peculiar aos que não têm o que falar sobre o que dizem saber. Na falta de algo melhor, resumi que escrevo sobre as minhas percepções, sem assunto específico, sem estrutura predileta ou formato padrão. Não encontrei um nome pra isso de "jogar letras" no que não sei falar com palavras ditas, mas no fim das contas é isso, escrever acaba sendo somente isso pra mim: letra praquilo que não consigo expressar boca afora. Sem dia marcado, se aperta a dor no peito ou quando a minha cabeça flutua tão ligeiro que acaba fugindo da órbita. Com dia marcado, se um tema cresce tanto em mim e fica por dias maior do que eu mesma pedindo também espaço pra si numa folha de papel (ou arquivo de texto, já contei aqui sobre a minha entrega plena virtual?).

Se chegou nesta linha do que digo descontente com a explicação esfarrapada acima, ainda há alternativa, faça a sua escolha e entenda os motivos que me fazem não mais abandonar a escrita despretensiosa. Escolha. Aconchegue-se aqui na minha alma, que eu posso ser conforto. Ou aborreça-se aqui com as minhas letras, perceba o que nos cerca quieto, deixa doer o tanto quanto é capaz de sentir. Permita-se a dúvida, o medo, permita-se um pingo de incoerência, que loucura no papel é inocência, não passa de gin e blues, combinação perfeita. Sinta comigo com que velocidade o sangue me percorre quando consigo trazer para uma frase um sentimento que de pequeno passava os dias calado escondido atrás dos ombros. Para essa minha vida eu escolho contar sobre a loucura tímida, sobre o sentimento guardado, sobre a combinação gin-blue-sangue, e só por isso escrevo agora e a cada dia um pouco mais, pois não sei mais ficar bem se não puder dar vida ao que está quieto e tão grande, tão bonito e morto, vivo sim, comigo.

Segunda-feira, Dezembro 24, 2007

em 24.12

Já tentei desistir, mas me recuso toda vez, ser teimoso que sou. Tem essa persistência idiota que me mantém de pé, é tudo culpa dela. Odeio, às vezes odeio profundamente esse meu otimismo burro. Sem ele, não haveria espaço para as expectativas e a vida poderia ser sempre nula e calma - os medos adormecidos não pinicam possibilidades. Se pudesse escolher, juro que faria a opção de não ser assim tão otimista com tudo. Veria, com os dois olhos bem abertos eu teria ou só o preto ou só o branco, sem chance de transitar pelos dois e acabar de frente outra vez com o meu cinza cotidiano.
Parece tão mais simples abrir mão das vontades, buscar apenas o óbvio, entender o superficial das mensagens e ficar contente com isso. Por fim eu poderia aquietar-me, ai como poderia anular-me e lamentar as possibilidades numa barra grande de chocolate ao leite sem marca mesmo.

Sábado, Novembro 24, 2007

em 24.11

Estou longe, cheia de palavras vazias falando alto na minha cabeça. Recesso intelectual absoluto. Daqui do alto, do décimo em que estou, gritei, esperando que o meu nada ecoasse andar abaixo, mas ele é mudo e fraco. É feio, guardei na mala só pra mim e vou levá-lo pra casa assim que voltar.

Lá embaixo, são as luzes, as buzinas e essa gente que segue, a expressão real desse mundo todo em que estou e não.

Vou descer agora e me misturar às cores.

Quinta-feira, Outubro 11, 2007

Essa falta, Meu cheio

O que me falta, não sei
não encontro o que me sangra
se tenho casa, comida, roupa lavada
em quero agora canto melhor pra viver
não faz sentido esse nó
bola de pêlo garganta abaixo
ou o vazio que é aqui dentro
onde não há nem dor nem cor
escala de cinza,
única palpitação

É, sim, certo
tenho mais do que mereço
não quero mesmo reclamar
filhos lindos,
pouca prata,
bons amigos,
até um cão que me receba em casa,
que mais haveria de querer?
É ingratidão, acusem logo
me entrego, sou culpada
prendam, atirem uma pedra
porque se tive escola e emprego
decentes
internet, fax, emepê três
que direito tenho eu
de dizer agora desse
choro contido
vontade doída, me arranca
desse peito
que eu cresci mais do que a fôrma
não caibo mais nesse corpo
nessa casa, nessa escola
nesse choro

Me dá, meu deus, outra cara
se caras eu tenho tantas
tenho sorrisos se preciso
sei cedê-los sem vontade
gentileza me sobra, e a
grosseria vem de brinde
não há aqui, será
uma cara sequer que engane a mim mesma?
Pois se tenho várias caras
por que não uma pra mim?
Uma que diga: levanta,
bom dia,
você adora isso tudo!
Uma que me engane
e conforte
satisfaça,
do jeito que outras caras minhas
fazem a uns
e desfazem a alguns
sem vergonha,
dó nem piedade.

Terça-feira, Setembro 25, 2007

mundo corporativo 2

Tomada I, ponto de ônibus: Bom dia/Bom dia, perdeu o ônibus ontem, né?/Não, eu tirei o dia/ Em plena segunda? Nossa, eu ainda chego lá/ Pois é, era pra ser na terça, mas tenho uma reunião, o pessoal que trabalha comigo pediu para trocar/ Ah, tá, pensei que tivesse acordado atrasada de novo/ Não, só combinei de tirar o dia. Tomada II, embarcando: Bom dia, crachá?/ Bom dia, motorista, estou sem crachá, acho que deixei na mesa do trabalho na sexta/Eles agora não deixam embarcar sem crachá/ Ok, mas eles quem que eu falo com eles?/ Eles da portaria, vai ter que descer lá e depois seguir a pé/Ai, não posso descer lá, tenho reunião bem cedo, depois eu volto pra passar o crachá na portaria/É melhor, senão também não vai almoçar. Tomada III, no ônibus: Outra vez sem crachá.../Pois é, não sei onde está a minha cabeça/Não sei como você esquece o crachá sempre, eu nunca esqueço o meu crachá. Tomada IV, a viagem: Por favor, você poderia fechar a janela? Aqui está muito.../ PAAAFF!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!/...frio. Tomada V, outros passageiros: Ontem a manicure não me atendeu não sei o que eu faço como vou trabalhar com a unha horrível assim alguém precisa me ajudar acho que vou ligar pra dona fulana você viu o sapato que aquela consultora usou na semana passada nunca vi coisa mais ridícula ela se acha a tal mas é uma baranga eu não estou suportando mais as crises daquela secretária ela acha que é a chefe do setor mas comigo não e aquela papelaria queria cobrar os meus olhos da cara mas comigo ela também não pinta e borda meu marido vai trocar de carro e eu já avisei tem que ser mais esperto pra não ficar pra trás. Tomada VI, pensamento solitário no setor: Quem mandou ser metida à besta, mania de originalidade? Agora inova mesmo, faz tudo sozinha, espertinha. Tomada VII, pensamento solitário no setor: batatinha quando nasce se esparrama pelo chão. Tomada VIII, o retorno: Alow, é da central, eu queria saber se hoje tem algum táxi saindo aqui da empresa à tarde, queria aproveitar para uma carona, preciso chegar um pouco mais cedo/Não, nenhum. Tomada IX, equipe: Ei, acabou de sair um táxi da central aqui do estacionamento, ligou pra saber se tinha algum que você pudesse aproveitar? Tomada X, ação: Amanhã de novo às 6h, ok?

Domingo, Setembro 23, 2007

minha dor maior

Acordei engasgada, e isso precisa sair daqui antes que acabe comigo, antes que eu vire abóbora ou que esqueça essa dor - porque eu sempre esqueço as minhas dores, mesmo quando quero guardá-las na última gaveta porque são boas dores de se sentir.

Mas essa dor, essa dor enorme que é a minha vontade de escrever eu duvido muito que me largue, preciso dominá-la. Ela é gigante, e eu não sou ninguém. É a aflição maior. A vontade de escrever é o sofrimento mais duro que eu já senti na vida. M
e sufoca, chega na garganta e não me deixa respirar. É dor que se embrenha e não consigo dar freio. É solidão absoluta e multidão. É a tristeza profunda na alegria mais íntima. É a certeza de nunca conseguir explicar tudo, nem pra mim mesma. Um estado de encantamento arrebatador e invisível. É a contramão da vida normal.

E eu por aqui só quero gritar...

Sexta-feira, Setembro 21, 2007

rendez-vous

me vale, essa objetiva olho-de-peixe pela qual avistei
um você esquivo
encontro despretensioso no estacionamento
subida de escada
cabeça bem baixa guardando curiosidade

se abre, me percebe logo!
o fundo músical demodé que arrumei não é de todo ruim
é original, indiscreto, urgente
henri salvador

subjugação muda e mútua
concorda, esse meu tempo clandestino pra você engana o ceticismo?
e essa gente toda?
não me importam
só acompanho com olhos mortos algum movimento
chamando atençao de nao-sei-quem porque a minha está perdida
a minha atenção está perdida
não sei se em alguma mensagem nossa:
fotografia em preto e branco que ninguem bateu

Quarta-feira, Setembro 19, 2007

melhor convite

Se estou mais pra presumida
e devo estar por não deixar os olhos onde deveria

ou porque vejo o depois, o mais além, menos o agora
Se sou mesmo mais pra prepotente
e isso é verdade quando não quero o que posso ter
e se pra mim nunca tem graça o que por aqui é venerado,

Se assim é,
E já que sou assim mesmo,
Que mal há em dar uma de ana c. e me bastar com o convite de uma folha em branco?

mundo corporativo

Agora tenho aqui um arquivo que não me agrada em nada, porque nem de cores ele soube nascer bonito pra merecer minha atenção. Ainda feio me fizeram dez planilhas dentro dele, cada qual com uma quantidade estupenda de informação e falta de senso estético. Minha tarde eu gasto no arquivo importante, os dedos eu uso pra corrigir qualquer coisa que não vai mudar o mundo nem o meu dia outra vez. Estou aqui de novo, só a cabeça que não, desde cedo ela não quis ficar, então eu disse, vai cabeça, foge pronde quiser em verso ou prosa que eu não conto pra ninguém que você faltou hoje e na hora certa bato o seu cartão.

Segunda-feira, Setembro 17, 2007

(ficção)

Foi. É claro que esperei por você outra noite mais, assim como também esperei enquanto o sol ofuscava a nossa conversa quase muda num papel impresso. Isso é insanidade, dizem, ou tinta preta borrada e só.
Esse lance de virtualidade, informalidade, espiritualidade e conexão, isso quase não combina mais, virou desculpa pra aquecer o frio bem mal aquecido. Com a gente não funciona, não é mesmo ou sou eu que quero você do lado de cá a qualquer custo?
Daqui eu diria, sai daquele lado, vem aqui pra esse que não vai faltar nem pão nem ombro quando quiser fechar os olhos e esquecer que é vivo por uns instantes, vem e vem de uma vez, só olha pra trás pra guardar no bolso aquilo que encontrar espalhado no chão e respirando e sorrindo pra nós.
Ganha coragem e troca tudo, escuta o que as linhas tortas que eu escrevi noutra vez querem dizer, pois se sucesso eu não posso garantir, ao menos dou a certeza do meu colo, filme, pipoca doce ou salgada combinando com a trama.

Terça-feira, Setembro 11, 2007

em: mudar

Troquei as roupas e as cores deste blog, o ouvido treinado pelo deboche, o jeito de sorrir pra dentro que este times new roman não deixa esconder. Vou escrever de trás pra frente, em zig-zag depois, pra já não ser mais como sou. Prefiro ser de trás pra frente, em zig-zag depois, a ter que escrever com a mesma tecla que eu escolhi e nem vi. Etnerf arp sàrt ed rev axied em.

Sexta-feira, Agosto 24, 2007

Los Tres


Não atendendo aos pedidos de manter o pudor com o gosto musical, falo agora sobre Los Tres, outra banda com direito de acesso ao "repeat" do meu Media Player (media player sim, estou aceitando doações de Ipods, hehe). Imagino que lerei novamente os comentários "não conheço, nunca ouvi" e, acreditem, isso não é um grande susto. Explico o motivo: por um lado, a mídia que temos colabora com o bombardeio dos enlatados musicais; por outro, nos conformamos com isso. A coisa agrava muito quando se trata de hermanos latino-americanos - como os chilenos de Los Tres - que, apesar do sucesso que fazem ou fizeram em seus países, continuam restritos à área de terra destinada à América hispânica. Longe de ser uma crítica aos enlatados em questão, a intenção aqui não é, de jeito algum, citar bandinhas desconhecidas da mídia para caracterizar excentricidade à dona do blog e emitir um atestado de desinformação aos poucos (pouquissímos??) leitores, como alguns blogs preferem fazer. Acreditem, eu também acho um saco ler os textos sobre musicas fritas de blogueiros que querem transparecer que bandas inglesas, suecas ou da ilha perdida de Atlantis sentaram no sofá de suas casas ontem à noite e tomaram um chazinho quentinho. Tenho uma proposta mais singela para estes posts melodiosos: tornar público o som que meus leigos ouvidos a-do-ram.

Mito do rock chileno e dona de um repertório com doses generosas de blues, a banda Los Tres produziu diversos álbuns ao longo dos anos 90. Os caras se separaram no ano 2000, mas no ano passado houve um reencontro que culminou na gravação de um um Greatest Hits. Vale a pena uma passada no
site oficial da banda para conferir a trajetória e um pouco da história de cada um dos quatro integrante - a propósito, é daqueles bacanas que deixam o visitante escutar um trechinho de cada música. Pra quem está pensando agora que eu não sei fazer contas e por isso não segui carreira na engenharia, a resposta é: los três eram quatro, sim. Pelo que sei, precisaram de mais um integrante, mas o nome já estava na boca do povo.


Escucha!

Você é do tipo que tem uma preguiçona danada até de pensar no que eles podem ter produzido em uma década inteira? Então baixe apenas o álbum Unplugged (1995), uma gravação ao vivo para a MTV, que conta com as "mais tocadas": Pajaros de Fuego, Un Amor Violento, He Barrido el Sol, Dejate Caer, Traje Desastre, entre outras. Estando disposto a me dar algum crédito, aproveita e lota o seu HD com os álbuns Los Tres (1991) e No Sabes qué desperdicio Tengo en el Alma (1993).

Terça-feira, Agosto 21, 2007

Ojos de Brujo


Continuarei o meu momento sem-vergonha iniciado no post sobre o Ludov - no qual expus sem pudor parte do meu gosto musical. Dou ênfase às palavras "sem-vergonha" e "pudor" porque só agora vejo o quanto pra mim é complicado discorrer sobre o que realmente gosta, ao passo que soaria muito natural falar se o caso fosse desgostar. Difícil é pôr à vista a questão: complicar-se todo explicando o porquê do gostar correndo o risco de virar alvo de zombaria ou levar um rótulo de brinde. Opto pelo risco e logo me percebo uma péssima defensora de opinião. E é sem intenção de ataque ou defesa de opinião que quero que as minhas palavras sejam tomada neste blog. Considerem-nas lançadas, somente.

Voltando ao gosto exposto, PRECISO falar sobre Ojos de Brujo. Formada na Espanha, a banda passeia com o flamenco em distintos territórios da música, como a eletrônica e hip hop, sem perder, porém, a emoção característica da música flamenca. Foi paixão à primeira escuta, fascínio total, com direito ao prestígio (ou não?) de ganhar a comunidade orkutiana "Chega de escutar Ojos de Brujo" (numa época em que o orkut também era a grande novidade e qualquer motivo era suficiente para uma boa palhaçada virtual - vide a comunidade dos "Águias", certo Paulo, Thais?).

Aos curiosos, o
novo site do grupo possui fotos, biografia e todo o restante que deve possuir uma página de divulgação na internet, mas fica devendo em mp3 para download ou link para escuta. Nada que um E-mule não resolva. Navegando por lá, encontrei um diário de bordo, algo como um blog das turnês (também típico de site de artista) só que com o diferencial de ter na coluna “Friends" os sites de Paco de Lucia e Ben Harper ao lado de Tom Zé, Lenine, Mutantes, Nação Zumbi e Naná Vasconcelos. Tirando pela seleta lista de amigos e influências musicais dos diversos gêneros, não é de espantar que a mistura flamenca de Ojos de Brujo seja tão emocionante.

Para quem ainda consegue aceitar a combinação “sugestão da sofia” e “E-mule”, fique com os álbuns Vengue (2001) e Bari (2005).

Buen provecho!
;-)

Segunda-feira, Agosto 20, 2007

Ludov

Gosto de verdade dessa banda (hehe...digam o que quiserem...rs). O Teo também adora, tanto que elegeu "Dorme em paz" como a canção de ninar mais votada nos últimos meses entre os garotos antenados de quatro anos (enquete caseira mesmo). Até instituiu umas adaptações exaltadas à letra: "Feche os olhos e as janelas, deixe o sono te guiar / Ser donzela ou matar mil dragões (MATAR MIL DRAGÕES!) / Ter cautela ou seguir furacões (SEGUIR FURACÕES, SEGUIR FURACÕES!!)".

Para quem não conhece, Ludov é uma banda paulista de rock alternativo (que medo tenho dessas definições estilísticas!!) que caiu no gosto da MTV nos últimos tempos. Até por isso sua aceitação é um tanto polêmica. Mas como lá em casa só pega o danado do canal nas noites em que a lua está totalmente alinhada à constelação de Órion, eu continuo gostando bastante do som. Acho fantástico o disco "O Exercício das Pequenas Coisas"; ouvi pouco do último, "Disco Paralelo". Se você já ouviu, o espaço dos comentários está disponível para elogios, criticas ou xingamentos. Se quer me dizer que em breve estarei ouvindo KLB (hehehe), garanto que esse dia não virá, mas confesso que tenho um tanto de mp3 do Luis Miguel no computador. Se você é pai, mãe, avó ou de alguma ong destinada aos cuidados com o gosto musical infantil, temo que os conselhos tenham chegado tarde demais, o Teo só quer saber das classificadas por ele como "música violenta".

Ah, peço desculpas pela demora em postar. Prometo que em breve postarei algo mais típico, com conflitos, confusões mentais e uma pitada de sarcasmo pra apimentar a página.

Segunda-feira, Julho 23, 2007

do mais feio

Esse personagem que crio agora não passa de ficção. De tão fictício, não se assemelha a nenhum de nós, nem mesmo a mim que agora conto a sua história e a leio simultaneamente. Nenhum de nós na vida real, na vida palpável e honrada que levamos, na vida digna da atenção alheia que temos, vida nossa inquestionável porque trabalhamos e geramos renda, vida esta que é merecedora de créditos porque aprendemos todas as suas regras desde muito pequeninos, nenhum de nós compara-se ao personagem dessa história. Ao contrário de nós que somos virtuosos e temos motivos para sermos autoconfiantes (para o que quer que seja), ao contrário de nós e nossa altivez autorizada, esse personagem vacila.
Tinha medo de formiga e por isso nunca colocou pés no chão sem chinelos ou meias. Um dia - parece até mentira - pensou uma hora e vinte se comia maçã ou salgado frito e interpretou a azia de depois como sinal da má decisão.
Mas não venho contabilizar aqui as vezes que esse personagem vacilou. Escrevo sobre ele só para massagear o nosso ego e justificar a nossa segurança.
Esse personagem não é como nós todos que desde cedo aprendemos a ter charme, ele é coisa ruim, não presta pra isso. O dia que quis cantar de galo na janela de uma moça deixou enrolar a língua numa crise da epilepsia que nunca tivera até então. De charme nunca tinha ouvido falar, nem nunca havia provado dele em boca alguma.
Ele, que é um coitado, já teve medo de formiga e quando superou não podia escolher entre comer fritura ou fruta, por toda a vida se complicou nas conquistas amorosas - como era justo que fosse com ele. Dava sempre um passo à frente combinado com dois atrás, como em uma dança acanhada e descompassada. Tinha sete anos quando se percebeu diferente dos outros meninos. Encruado. Havia pensado tanto na coragem que deveria ter ao se aproximar de alguém que a força lhe fugira pra sempre. Os mais velhos diagnosticaram espinhela caída como a razão do problema de auto-estima, defeito que levou consigo até o túmulo, assim como o ar de homem intocado - mau agouro que família fez questão de enterrar na cova mais funda para não contaminar nenhum menino novo.
Ano passado vi o enterro do pobre fictício. Sem pompa, sem charme, sem graça, como se já não fosse hora.

Sobramos em nosso orgulho e alta estima, charme, certezas da vida e trabalho decente nosso (comemoremos juntos!)...até apontarmos outro dele entre...nós. Um inseguro, frágil, feio. Um vivo.


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Sábado, Julho 14, 2007

em coqueiral


E coqueiral, já que escapuliu escorregadio no post passado.

Nem necessário um berro tão alto pra ser ouvido em coqueiral. Um burburinho qualquer, comentário pequeno, uma história contada ao pé do ouvido pode ultrapassar paredes, num pulo percorrer etapas. Um cochicho feito no menor volume ganha corpo em segundos, e ganha corpos, toma pra si os corpos que aqui existem. Se família em festa, se casais em crise, se amor latente em alto e bom som, não faz diferença, há sempre uma vida em trânsito, passando de mão em mão, de uma boca, outra boca, pés e solas dos sapatos. O lugar é pura vida, um amontoado de muita vida, um coração que lateja com pressa e força.

Como é possível tamanha indiferença no reduto pulsante da vida?
Repare ao seu redor, existem ouvidos e ouvidos e nem todos conseguem encontrar a freqüência em que estão os pedidos de socorro lançados no ar.

Vale um gritinho de nada pra soar no pico do bairro pois até os picos daqui são rasteiros. O lugar cresceu horizontalmente, nada é muito alto. Esticou-se hoo/rii/zon/taaal/men/teeee, deitado em blocos, desse jeito em/e/ta/pas/etapas/e/tapas. Verticalmente modesto. Os coqueiros são os únicos que tocam o céu. Sorte a deles, nós ficamos aqui por baixo esbarrando uns nos outros, incomodados em compartilhar a rotina como criança que não quer dividir o doce.

E rotina sabe-se doce? Nos misturamos. A prostituta, a fofoqueira, gente de boa índole, o cachaceiro da entrada, os senhores que jogam baralho, a criança ainda de pipa e bola em terreno de areia, a dona-de-casa infeliz, o travesti, o marido traído, nos misturamos. Somos todos maridos traídos, prostitutas, senhores do baralho, fofoqueiras, travestis, cachaceiros da entrada, donas-de-casa infelizes, crianças ainda de pipa e bola em terreno de areia. Por aqui somos a mesma coisa, somos gente de boa índole, eu, você que me lê de longe também é, aquele que nem se dá conta de que é igual, somos da mesma coisa, sei que somos e por que então não esqueço essa aflição?


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Quarta-feira, Julho 11, 2007

o pós-guerra

Anteontem despertei do período de letargia induzida em que estive desde a última guerra. Foi bom, acordei bem, acho até que feliz, aliviada. A adrenalina das bombas conceituais da luta não-armada serviu pra animar o instinto que andava murcho ― não conter choro, responder sem pensar, criticar também, falar alto fazendo as ondas sonoras atingirem o pico de coqueiral. Esquecer que preciso ser forte sempre, usar da licença poética feminina que ainda existe grande aqui. Sem culpa.

Com culpa, considerável e inevitável culpa. A apatia do pós-guerra se alimenta aí.

Um soar de cornetas anunciou o fim da batalha. Temporário, sem dúvida, se não pra nós, temporário para a maioria dos outros clãs comuns que seguem na história conflitando os seus ideais.

Terça-feira, Julho 03, 2007

prestação de contas

Prestando contas ao par de leitores do blog: em breve postarei mais bobagens. Escreverei assim que eu acordar do meu sono de quatro dias e quatro noites ininterruptas, aquele de quando vou a uma guerra civil.

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Terça-feira, Junho 26, 2007

mais do caio

Parte I
E falando em caio, fui atendida por uma mocinha ontem na Bienal do Livro que gostava tanto dele que atribuiu uns apelidos carinhosos aos títulos do autor:
- Você tem algo do caio fernando aí?
- Hummm...sim, três títulos. Orelhas Negras e...
- Orelhas? Ovelhas, certo?
- Foi isso que eu disse, Ovelhas.
- Você disse...Ovelhas?
- Sim, eu disse Ovelhas.
- Ok, desculpa. Eu entendi Orelhas Negras, desculpa.
- Tenho também Fragmentos e o último é O Avô Apunhalado...
- Avô? Não, Ovo Apunha...mmm...bom, deixa pra lá.

No fim das contas matou o avô sem dó nem piedade. Depois de esconder as orelhas, achei melhor manter também a boca bem fechada.


Parte II
Mudando de pau pra cavaco ― nem tanto, já que dizia de caio, suas orelhas negras e sigo falando de livros ― adianto que não tenho a menor intenção de dar um tom sombrio ou vitimado a isso que direi agora. O que me passa, quero falar, quero contar o que me intriga, o que me passa é que a cada livro que leio ou filme que assisto me torno ainda mais distante ― estranha, deslocada. Cada álbum que ouço ou cada história de esquina e ponto de ônibus me fazem dar um passo mais largo em direção a um mundo que ainda não sei compartilhar. Fiquei oca, como uma árvore podre.
(Peço que desliguem a melodia melancólica que acompanha essas minhas palavras. Não sou pessoa triste, só oca, não venho escandalizar possível visitante do blog).
Oca. Oca, como quando colocamos as unhas na casca marrom e grossa de uma velha árvore, marcada não se sabe se pelo tempo ou outro, ainda úmida, algum vigor aparente e nos surpreende com um grande vazio do lado de dentro, como se estivesse apodrecendo aos poucos sem se deixar notar, respirando por obrigação, persistindo ao tempo porque seu papel de árvore oca é manter-se ali pelo tempo que puder. Estou oca, esvaziada de algum teor para dividir, compartilhando nada todo o tempo. Oca. Passo de raspão, tangenciando qualquer grupo, mas não importa como seja, não passa de uma relação oca.
Digo, com o direito de dizer pois não fará mal a pessoa alguma ler isso: perdi tão cedo o jeito de agradar! E agora ando oca, de um mundo oco onde ficam os livros que li, poucas pessoas, filmes, imagens remotas, algo de paixão e histórias de esquina que me enfiam ainda mais no oco desse mundo que aqui no blog eu deixo.

Sexta-feira, Junho 22, 2007

caio

Fico daqui remoendo o tempo, aproveitando pra nada grandioso, as pernas pra baixo da mesa e os braços em noventa graus dia após dia, como já havia denunciado antes. Eis que, em intervalo não autorizado, internet condenável, uma carta do caio fernando abreu me vence em nó na garganta. E pensar que há dois anos mal o conhecia! Salve aquele que um dia despertou a minha curiosidade para o caio - te devo um bom dia da minha vida!
Leitura rasteira mas água nos olhos, 16h35, hora de ir. Quem tiver um pouco de paz, que guarde para si. O pouco do caio hoje roubou toda a minha e eu tanto gosto disso...

“[...] pode enganar a alguns, mas não enganaria a si e, portanto, não preencheria esse oco. [...] O que tem é uma questão de honestidade básica. [...] Então vai, remexe fundo, como diz o poeta gaúcho, Gabriel de Britto Velho, ‘apaga o cigarro no peito / diz pra ti o que não gostas de ouvir / diz tudo’. [...] Tira sangue com as unhas. E não importa a forma, não importa a ‘função social’, nem nada, não importa que, a princípio, seja apenas uma espécie de auto-exorcismo. Mas tem que sangrar a-bun-dan-te-men-te. Você não está com medo dessa entrega? Porque dói, dói, dói. É de uma solidão assustadora. A única recompensa é aquilo que Laing diz que é a única coisa que pode nos salvar da loucura, do suicídio, da auto-anulação: um sentimento de glória interior”.

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Quinta-feira, Junho 21, 2007

sábados, cores, domingos

Pensando em derramar mais tinta pela casa no fim de semana.
Da última investida na pintura ainda tenhos vestígio no velho taco do piso. Faltou também pintar uma porta ou outra, paredes dos quartos, janelas.

Nessas experiências bizarras em decoração, eu e meu fiel ajudante mirim gastamos um bom tempo do último domingo tentando instalar a fotografia do sebastião salgado, a tapeçaria que trouxe do equador, o pratinho de cholas do peru, coisas que mantenho em cima do armário, sempre aguardando o dia em que a casa será nossa de verdade. Os boletos das prestações mensais à cooperativa habitacional ainda não me convenceram disso. É um quê de não-faço-idéia-do-que-falta, provavelmente uma questão de espaço, um querer largar bagunça por onde eu passe sem que ela se remova automaticamente, uma vontade de não ouvir a televisão ligada e dar lugar ao toca-discos que agora padece num canto da cozinha. Desistimos dessa vez, tentarei de novo no fim de semana.

Trocar todos de quarto por lá é idéia genial, talvez também comece isso no fim de semana. Vontade de dar um ao teo, para que ele possa se organizar como queira, para que tenha seus livros ao alcance. Para que nós dois tenhamos algum espaço.

Pensei agora em tirar o cinza da cortina, como se assim ganhasse um pouco mais da luz que me falta.

Esperando mais do que deveria do fim de semana.
Outra vez.

Domingo, Junho 17, 2007

Só um desabafo

Não esperem que eu opte pelo normal. Nada pessoal, isso é só porque não conheci o que é normal e ainda dou um boi pelo estranho. Mas me deixem usar do convencional quando eu quiser sem ganhar um olhar crítico que grita comigo e me deixa surda e me deixa cega. Permitam que eu pareça normal e não exijam estranhezas de mim o tempo todo, mas me deixem transbordar da minha esquisitice voluntária.

Esqueçam o que eu gostava antes. Eu mesma não me lembro mais e o que me vem à mente já se misturou com as coisas do depois. E se eu disser que gosto disso, daquilo, beltrano ou broto de goiaba, rogo para que não digam que antes eu não gostava. Nada pessoal, ao contrário, é preocupação em poupar os seus esforços porque corro o risco de amanhã já desgostar disso, daquilo, beltrano ou broto de goiaba.

Permitam que eu me perfume, arrume, crie expectativas, use brinco e batom, permitam que eu seja, quando eu quiser, uma mulher que quer se ver bonita. Deixem que a minha cara lavada e roupa em desalinho os encontre nos demais dias. Posso jurar que continuo me valorizando nesses dias também e não há motivos para alarde.

Aproveitando o ensejo, por favor, não queiram a minha simpatia matinal diária. Acreditem, não é mesmo pessoal, só não quero ser obrigada a isso por querer dar sempre os meus sorrisos sinceros. Os meus da manhã nem sempre são assim e eu prefiro esperar que madurem.

Por fim, não esperem que exista um motivo atual concreto para redigir tantos pedidos. É só um desabafo, sem expectativas. Podem deixar pra atender no Natal.

Sexta-feira, Junho 15, 2007

fabulas do teo II

Mapa empoeirado recortado de livros de primeiro grau; tesoura sem ponta que é pra não machucar a mão menor; canetinhas, várias cores, sem tinta ou borrando a folha, algumas ainda boas; o traço vermelho desenha o roteiro, vai de um lugar a outro unindo pontos, passa molhado pelo atlântico, se enche de desejo de saudar o pacífico mas encontra antes consigo confundindo a trilha com as suas vontades, num pra lá e pra cá que é sempre mais pra lá do que pra cá, zi-gue-za-gue-an-do-tudo-até-sair. Do papel.
Uma pausa: biscoito de polvilho, leite no copo de bico e colheradas de achocolatado em pó.
Farelo no mapa mais parece neve.

Manga da camisa e o frio e a neve vão ao chão; barquinho de jornal feito da impressão da manhã é coisa bem miúda; pouca bagagem mesmo, só o essencial para a viagem como a caneta-lança e o cavalo roubado de um jogo de xadrez; segue por terra porque barco tem roda e tem asa; a Amazônia cruza voando para ver do topo do mundo os pés de vida mais viva.

Quer andar de trem, volta pra casa; um pouco da terra de cada lugar e polvilho na roupa ; bons bocejos, tinta nas unhas; ainda cheiro de leite.

Quarta-feira, Junho 13, 2007

Depois do 12 de junho...

É um grande alívio escrever agora isenta do possível mal-estar que o dia de ontem costuma provocar nos despreparados. Mesmo a parcela mais esclarecida da população, capaz de perceber a estratégia mercadólogica para tomar as suadas moedas dos fundos dos bolsos, também pode ser vítima do incômodo do dia. De forma presunçosa, penso que estou nesse grupo e, assim como outros esclarecidos, também estive passível de ter a minha paz molestada pelas manifestações do dia: casais saindo pelos ladrões, perguntas inconvenientes sobre o presente do namorado (quando não marido!), frases de efeito espalhadas em outdoors, revistas, sites de notícia, panfletos nas ruas. Submetida ao clima de desconforto, à espreita de qualquer abordagem indiscreta, devo reconhecer que tive um dia tranquilo e proveitoso, decididamente melhor do que nos últimos anos em que estive como participante na caça aos mimos.
No papel exclusivo de observadora pude perceber que a mobilização em torno do amor, ao contrário do que se pensa, é bem menos assustadora para os solteiros, em compensação pode tornar-se uma importuna pedra nos sapatos dos namorados em crise ou dos meio-namorados (aquela gente que está mas não está, é mas não existe). Vi dos dois tipos ontem e a apreensão era nítida em ambos os casos. No primeiro, os personagens de um namoro de três anos e meio conseguia suar frio, chorar e rir ao mesmo tempo, oscilando entre o término, a comemoração do dia e o crime passional. Não muito diferente, a situação dos atores de um meio-namoro era pacífica, porém não menos densa, neste caso carregada de ansiedade quanto a um singelo contato, ponderando toda atitude para não soar sugestiva o suficiente para intimidar o outro, ou ainda pior, gélida e abnegada.
Pus em risco o humor e arrisquei uma ida ao shopping. Logo na primeira loja, uma moça escrevia versinhos sentada no chão atrás do caixa. Lia baixinho para a amiga que computava as minhas compras, como se o destino da composição fosse a bolsa de algum dos colegas de trabalho que se encarregavam das compras de outros clientes. Pensei que não queria estar na pele do sujeito que iria receber o bilhete, possivelmente porque o conteúdo me parecia bastante piegas. Pensei que seria incrível colocar a mão no bolso e encontrar o tal bilhete mal escrito. Pensei que tudo seria imaginação minha e, quem sabe, os versos não seriam surpresa, mas só uma burocracia da data. Pensei, por fim, que voltar pra casa e deixá-los livres do meu olhar curioso seria o melhor a fazer naquela noite.

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Domingo, Junho 10, 2007

o relativismo da solidão

Certa vez ouvia as lamentações de um amigo que se sentia muito sozinho. Dizia na conversa que gostava de morar só, mas odiava passar o fim de semana inteiro sem receber uma ligação. Eu escutava com calma, só não entendia como alguém como ele, repleto das qualidades que tornam uma pessoa interessante, pudesse sentir tão perto a solidão. Contestei o papo, não para fazer o meu papel de confidente, mas porque sua queixa me parecia inadmissível - era talentoso, intelingente, agradável, bonito e quase sempre cheio de 'pretendentes'. Como resposta, soltou uma frase que nunca saiu da minha cabeça: "você que não pode, tem ao teo, nunca será sozinha". O moço tinha razão.


Quinta-feira, Junho 07, 2007

uma parte de mim

Enfim tomei minha decisão e abandonei a monografia já qualificada sobre a Telesur. Claro que pesei todos os lados e importunei o sossego de muitos com o assunto, como já era esperado. Meu processo decisório é trabalhoso, mas devo confessar que tirei uma bigorna das costas!

Um texto da monografia, no entanto, gostaria de deixar publicado aqui. O poema é de Ferreira Gullar, cantado por Fagner, Mercedes Sosa e Joan Manuel no disco de nome “Traduzir-se”:

Uma parte de mim é todo mundo
Outra parte é ninguém, fundo sem fundo

Uma parte de mim é multidão
Outra parte estranheza e solidão

Uma parte de mim pesa, pondera
Outra parte delira

Uma parte de mim almoça e janta
Outra parte se espanta

Uma parte de mim é permanente
Outra parte se sabe de repente

Uma parte de mim é só vertigem
Outra parte linguagem

Traduzir uma parte na outra parte
Que é uma questão de linguagem
Será arte?

Agora me questiono se escolhi o texto por representar os estratos culturais latino-americanos em colisão permanente ou se pensava em poetizar o estigma de confusa que venho carregando...hehe



Quarta-feira, Junho 06, 2007

ser sui generis

Fiquei cismada com a qualificação de "sui generis" que recebi dias atrás. Ainda insisti na dúvida, que persistiu ao aceno com a cabeça confirmando me achar "sui generis". Que bom - pensei bem rápido - me parece excelente ser considerada uma pessoa peculiar. O alívio com a idéia de agradar durou pouco. Continuo sem entender em que sentido existe o meu "sui generis".

Minha dúvida não parece assim tão absurda se investigarmos nas origens da querida língua que usamos. A expressão latina "sui generis" significa "do seu próprio genêro" e não é mesmo das mais claras. Começou a ser usada na classificações científicas para definir aquilo que era único em seu genêro (plantas, rochas, doenças). Aos poucos, porém, a expressão saiu dos laboratórios direto para as ruas, onde foi transformada em sinônimo de tudo o que era considerado incomum. Não só aquilo que atraía pela singularidade passou a ser "sui generis", mas também o que era nitidamente esquisito.

Se o meu "sui generis" era para ser atraente ou estranhíssimo, ainda não sei, mas tenho pensado na idéia de descobrir.

;)

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Segunda-feira, Junho 04, 2007

fábulas do teo

- Na televisão o chips azul faz soltar gelo pelo boca, por que comigo não funciona?
- Esse deve estar com defeito, teo. (crec) Também não deu certo pra mim.

Tem hora que não sei como consegui viver sem isso.

Domingo, Junho 03, 2007

sobre matrimônios e precipícios

Mais amigos com casamento marcado. Claro, não faria aqui qualquer homenagem a eles, afinal, é um blog tão particular que não possui qualquer leitor. Uma delas já se casa na próxima sexta-feira, o outro em dezembro. Nas poucas (mas longas) conversas que temos nos últimos tempos, não consigo deixar de tentar perceber as emoções que invadem alguém com data marcada para mudar de vida. As questões sobre a nova casa estão quase sempre em todas as conversas, mas o assunto recordista, aquele presente até nas tentativas de descanso, é sempre a festa. Vejo que comemorar é importante para quase todos os noivos. Para esses amigos, ao menos, é essencial. A festa, a casa, o músico, o buffet, tudo isso bem organizado para proporcionar uma entrada alegre na "nova vida" têm, provavelmente, sua importância. Eu, porém, não consigo deixar de ficar intrigada com a pouca preocupação desses casais quanto ao que espera por eles em uma rotina compartilhada. Entregam-se vendados, apaixonadamente cegos. Se reflito sobre isso, minha grande preocupação nem é com eles, mas comigo: esqueci como é quebrar a cara. Não conseguiria hoje deixar de questionar se é a pessoa certa, se seriam pacientes o bastante, se seria prazeroso acordar na madrugada só para ouvir o outro falar uma bobagem boa qualquer. Sei que são essas as dúvidas que trazem charme para o relacionamento, mas arriscar, arriscar é tão arriscado, já tive essa coragem, acho que a perdi no meio do caminho.

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Queria esclarecer a tal particularidade deste blog. Seu grande mérito é organizar as minhas divagações - acho que não tem dado muito certo isso, percebam (hehe). Tudo bem, confesso que é interessante a idéia de, em qualquer época, não necessariamente agora, ter um tímido leitor, daquele que participa sem interferir.

Romantismo ou prepotência pura?

Quarta-feira, Março 28, 2007

dias longos

Um dia todo com pernas pra baixo da mesa e braços em noventa graus.
Com esse tempo poderia buscar sinônimos em dicionário, encaixá-los depois em textos nada legíveis como este. Talvez decifraria escritos em um idioma que eu não conheça nenhuma palavra. Poderia, quem sabe, desenhar caras nos dedos dos pés do teo, criar histórias, dar-lhe minhas boas cocégas. Tão bom quanto seria desperdiçar meus minutos ponderando os riscos de invadir os olhares ariscos que, faz algum tempo, percebo produzir encantadora trajetória de tristeza e timidez.
Proveitoso seria virar e revirar as velhas canções que abarrotam o computador. Escutar a mesma música trinta ou quarenta vezes também me parece útil, quando um dos versos, cruelmente íntimo, leva-me a não querer paixão trivial. Vaguear lugares virtuais e não, encontrar um mundo como grande demais para abraçar, sentir a pequenez da existência.
Tanto a fazer, mas tenho ainda as pernas pra baixo da mesa e não consigo tirá-las.
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Domingo, Março 04, 2007

o fotolog ainda vive

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novos posts de fotos desatualizadíssimas dos giambarba's de cá.

Terça-feira, Janeiro 30, 2007

meus dois olhos

Meus dois olhos são, e sempre foram assim, um para cada mundo em que vivo.
Uso o direito para o mundo real: débil, entrevê o relógio que acorda igual todos os dias, leva-me ao ônibus das minhas manhãs na névoa farta de encontros sem saudação — acompanhou embaçado cada frouxo dia destes vinte e cinco anos.
O vivo olho esquerdo, porém, enxerga o meu mundo fantástico: o faz tão virtuoso, vê tantas cores e com tal ineditismo que a cada dia o tenho mais aberto — fabulo minhas horas marcadas, encontros, saudação, realidade.
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Quarta-feira, Janeiro 03, 2007

ano 7

Tenho olhado o mundo de cima, como quem fita com urgência um espaço na multidão. Percebo logo os vazios e os vazios não me percebem. O olhar que vagueia, quando reconhe semelhança, se acanha, foge depressa. A introspecção que amargava a boca enquanto criança até hoje tem sabor, mas agora é bom.

Acho que é por isso que nem mesmo o sol que se embaralhava com uma noite ainda ébria conseguiu ofuscar o encanto de compartir idéias vagas - mais ou menos agradáveis, mais ou menos incoerentes. Nem a efemeridade do encontro tira os méritos dos minutos de conforto que abrem o ano. Sequer o atropelo seguinte.

Quarta-feira, Dezembro 20, 2006

navidad

O natal não significa muito. Digo isso com freqüência, sinto isso ainda mais. Logo é 20 e não me parece natal ou fim de ano. Nem mesmo vi enfeites, presépios, canções, uva passa, nozes. A véspera cai num domingo e como no ano anterior não terá gosto de chester, nem vozes que crescem à medida que se aproximam. O telefone talvez despreze temporariamente a campainha. A casa, pra não dizer que não está preparada, leva uma árvore seminua, mas reluzente. Esteve assim no último natal, em que a noite foi de espera por um vinho roubado de qualquer festa de família e surpresa. Engraçado ou trágico – definam – não será diferente este ano.
Afim de colocar tudo pra fora, a começar pelos móveis. Cama, armário quebrado, estante velha que poderia não estar mais ali, livros, pedaços de brinquedos, sofás. Percebo que nada que está ali é realmente meu ou parece comigo. Posso empilhar tudo do lado de fora, enquanto dentro a água lavaria todo o vestígio do que não me pertence. Escolheria então, um a um, o que é parte da minha vida. Cama, livros, brinquedos, roupas, música, gente. Quiçá seja a data apropriada para a limpeza. Incluo os rótulos na sacola de doações.

Terça-feira, Dezembro 19, 2006

Quase

o último sábado desmente todas as linhas do post abaixo. ou QUASE.
não vejo a hora de comprar a próxima edição (e festinha de lançamento...claro).
propaganda gratuita, só porque os caras merecem mesmo: www.fotolog.com/revista_quase

novo ano e votos de alguma mudança (qualquer)

Uma bebida, duas, volta noturna na cidade de musicas e caras já visitadas muitas vezes. Quase pouca risada, talvez algum sorriso mais tímido que bonito. Acaba sempre fixando os olhos ao redor e chama isso de sentir o desconhecido. Mais um gole — já não seriam todos familiares? Brinde aos padronizados e à soberba dos que se pensam diferentes.
O ritual incômodo insiste em sentar à mesa nas últimas tentativas de diversão. Últimas, para ser exata, é um número maior que trinta. Quando se dá conta de que a hora são três, a madrugada termina sem que pudesse evitar um desconforto. Estende o rito em reclamações e o arrepender-se de sair de casa. Da próxima não sai, promessa. Na prática, fica em casa até se esquecer do rito e encontrar com ele em novo copo.
Tem falado muito em prática. Brinca dizendo que vai acordar o 2007 alguém mais prático, menos confuso, mais orientado, menos romântico. Gosta dos paradoxos diários que cria para garantir a existência de dúvidas — como mudaria isso? Não quer mudar. A idéia de praticidade perde-se em teoria, como todas as últimas idéias suas. Últimas, para ser exata, podem somar anos.


Quer gritar pra ver se joga fora o tal lirismo. Engole seco pra não deixá-lo escapar.

Domingo, Outubro 01, 2006

puedo cambiar

te tirei de lá, coisa escrita, para passar o daqui. só tem lugar pra um e você perdeu hoje.

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estou me trocando.


não olhe.

Domingo, Setembro 03, 2006

perdido nas profundezas escuras da sua bolsa

Três unhas de cada mão, um recorde. Parte das fotografias que desejava organizar agora tem seus devidos títulos. Os cds, todos encontrados, os novos, os antigos que nem memória mais. A minha quase organização das coisas feitas pelas metades que mantêm meus dias na confortável penumbra da não-conclusão. Sempre há o que ser feito antes de escolher ou terminar - o que quer que seja.
O restante das fotografias, protagonistas desta penumbra por vezes, enfeitam-se agora dos resquícios da cor vermelha que devia marcar as outras quatro unhas. Os cds encontrados logo se escondem e já é de novo minha hora de parar.
Ordem, aqui o que é falta é ordem nas idéias e atitudes.

Quinta-feira, Junho 29, 2006

Equador-Peru

Em março começo as linhas que acabaram por perder-se na minha rotina, na falta de tempo, talvez na indisposição. Isso sempre acontece e não em poucas vezes me pego abdicando da conclusão para não expor algo que eu não goste. Não gosto disso em mim.

Dessa vez vai incompleto. Muito do que eu sentia na ocasião também já se perdeu na mesma falta de tempo e indisposição que abocanhara as letras que deveriam completar esse post:

Nem desmoronamentos, contratempos ou acidentes, nada é disso é mais difícil do que se desligar das pessoas. Mesmo que eu tenha um desapego intrínseco aos aquarianos (ora frieza, sim), tenho também um sentimento que costumo chamar de espírito de equipe. Não poucas vezes, os dois entram em conflito. O lamento sempre acontece ao despedir-me de alguém que não tive oportunidade (coragem?) de pedir o contato. Por vezes, sinto que estou mais próxima de quem não ousei pedir um email sequer do que daqueles que levo comigo o endereço completo.

A fronteira Equador-Peru foi a mais estressante da viagem. A começar pela migração do Equador, que fica alguns kilômetros antes do ponto final do ônibus, o que nos fez retornar e pagar por um táxi a mais. Tenho a impressão de que lá haviam mais cambistas, taxistas, fretes, todos oferecendo seus serviços já com uma bagagem nossa nas mãos e gritando o nome de uma amiga que, por descuido, deixei escapar na confusão.

Conseguimos um táxi peruano que nos levasse até Tumbes, em troca dos últimos dólares sobreviventes na economia equatoriana. E pra continuar a viagem, uma parada na praça da cidade para buscar uma lan house, transferir dinheiro e sacar. Já em soles, quanto dinheiro fizemos!! Um novo sol vale em torno de um real e meio. Os táxis, e depois descobrimos que em todo o Peru, são bicicletas ou motos nas quais são acopladas cabines. Estão por toda parte, esbarrando, xingando, mantendo o caos que é o território peruano

Sem tempo para banho, seguimos para Lima, mais 20 horas de viagem. A paisagem deste trajeto é, invariavelmente, desértica. Seco e quente, quando não pedras, areia. E eu que imaginava ver llamas por toda parte! Os animais mais próximos eram os poodles coloridos que viajavam conosco, acompanhando sua adestradora boliviana, seu marido chileno e a menina de oito anos contorcionista.

Lima aproximava-se e era impossível esconder a decepção".

Segunda-feira, Março 06, 2006

perto não quer dizer cúmplice

Um email velho guardado pode responder a surpresa de alguém que pensei me conhecer melhor "li seu blog, gostei do texto, não havia lido muito coisa sua". Verdade, pouco interesse, sempre.

"Gosto mais de escrever do que falar. Acho que acabo escrevendo mais email, torpedos, cartas, talvez pela necessidade de resposta. Queria conseguir escrever sem próposito, ao menos não necessariamente. Na verdade consigo, mas não mostro. É pra mim como se leitores existissem seletivamente, cruelmente, nao interessa isso, não responde nada, é para outro, não dá para perder tempo, não vale a pena, não é bom. Olhei o seu blog, o menino azul de todas as cores, gostei. Gosto de como escreve, a poesia latente. Invejo a audácia, a exposição. Um dia. Os dedos tímidos de que falei (ou apenas pensei?) é o medo da ausência de resposta, a pergunta no vazio de um sopro. Gosto de ler e reler e ler os escritos, como se assim fosse permitido mostrar. Emails, cartas, isso pode. Sempre vai haver alguém esperando por elas, e mesmo que não, é pessoal, personalizadíssimo, não existe risco. Do sopro. Eu de cá, sempre espero as respostas, ou as perguntas, uma linhazinha sequer, tênue entre o distante e o próximo"

Quarta-feira, Fevereiro 22, 2006

Equador

Como é complicado tentar atualizar este blog durante a viagem! Dias a fio dentro de ônibus, quando chegamos em uma cidade o que mais importa é conhecer o lugar, visitar os museus que contam a sua história, viver sua noite. Parar na internet sempre fica para amanhã, em dois dias, quando descer na próxima cidade, se existir uma lan house na rodoviária, quando. Mientras eso, rascunhamos, papel e lápis podem ficar todo o tempo próximos.

Sair da Colômbia não foi fãcil. Nada do que eu fantasiava, amedrontada com a idéia das Farcs e o comentário do amigo boliviano "cuidado, vai virar namorada de guerrilheiro". Somente contratempos comuns em viagens terrestres, acarretando em atrasos que virão a prejudicar o nosso retorno.

Chegamos na fronteira do Equador bem cedinho, seis da manhã, horário que costumo dizer que tem o cheiro de fronteira. Gosto dessa hora. Desse cheiro. Quando todas as pessoas se enfileiram para "estampar" seus passaportes, muitos outros mochileiros, alguns imigrantes, e eu não consigo evitar de pensar sobre que esperam do tempo que vem agora ou que passaram para estar ali. Quero sempre tentar estar nas fronteiras neste mesmo horário com cheiro de fronteira.

O Equador é o país que eu não queria conhecer. Ou melhor, não fazia questão. E não tivemos outro jeito de chegar ao Peru senão passando por ele. A coisa imposta tornou-se fascinante. O país é diferente de tudo que já vi até então e penso que só com fotos posso atestar isso. Beleza, susto e encanto, em uma paisagem que a cada instante revela-se nova. Assim como a paisagem do Equador, o clima da capital, Quito, também oscila com uma rapidez que nos faz tremer e suar. Todo quitenho sabe que deve ter casacos e meias na bolsa, ainda que o sol brilhe ofuscante. Buscamos um hotel indicado pelo Guia Criativo do Viajante, na tentativa de nos esquivarmos de situações como a do hotel em Bogotá. Hotel Ernan, então, no Centro de Quito, onde tomamos nosso primeiro banho quente da viagem.

A capital é dividida em duas partes: o centro histórico e a parte moderna da cidade. O primeiro, com seus muitos museus, praças e riquíssimas igrejas, é o responsável por fazer de Quito a segunda capital do mundo a tornar-se Patrimônio da Humanidade pela ONU. É belíssimo e, sem dúvida nenhuma, no nosso ranking de capitais, Quito, sutilmente, desbancou Bogotá. A Mariscal é a parte moderna, com prédios novos e vida noturna agitada na avenida Amazonas, com restaurantes variados, cyber cafés e é, claro, boates de salsa. E como há turista no Equador para desfrutar suas belezas e gastar em dólares! Terça-feira e a noite está viva, pudemos aproveitar um cyber, com cerveja Pilsener local e música eletrônica. É na Mariscal também que fica o Mercado de Artesanato, produtos confeccionados em Otavalo (mercado indígena) vendidos ali com preços muito mais turísticos. Ainda assim, é possível encontrar um casaco de alpaca por dez dólares e se chorar (lá pechincha é comum) consegue comprar três por 20 dólares.

Conhecer o Equador, ao contrário do que aconteceu nas outras cidades, foi mais fácil porque estávamos amparadas por uma equipe muito bem disposta em nos fazer sentir bem. Os meninos da Junior Achievemente, ONG em que trabalha no Brasil uma amiga que estava conosco, foram excelentes anfitriões. Com eles, conhecemos o Café Mosaico, de onde foi possível apreciar o Palácio de Cristal de uma Quito noturna impetuosa. Também voltamos a Mariscal da salsa que nunca cessa em todos os paises latinos. Por fim, a Igreja da Companhia de Jesus e o teleférico do Parque Vulcano.

Sair do Equador deixou um sensação nostálgica de um breve retorno . Todavia, a estrada sempre vence cansaço ou apego. Voltar para os ônibus é confortador.

Huaquillas é o novo destino, nova fronteira, o mesmo cheiro.

Segunda-feira, Fevereiro 13, 2006

Colombia

Como sempre, postando atrasado. É difícil parar para acessar a internet com calma, principalmente quando se está viajando em grupo e tem um destino diferente a cada dia que passa.
Saímos de Caracas no dia 1 de fevereiro, atrasadas, pois marcaram nossa visita ao canal da Telesur para o dia 31. Desistimos dos planos de pegar um vôo até Lima, no Peru, e passamos a contar com a Colombia na nossa rota. O medo, antes inevitável, deu lugar a curiosidade depois de conhecer muitos colombianos que fizeram a viagem até a Venezuela por terra.
Pegamos um onibus até Merida, uma cidade charmosa, de clima universitário, muito semelhante a Ouro Preto brasileira. É lá que está localizado o maior teleférico do mundo, que o tempo curto novamente nao me deixou conhecer. Em compensacao, pude passar na sorveteria recorde em quantidade de sabores pelo Guiness Book, também situada em Mérida, e tive o privilégio de experimentar os sorvetes de feijao, cerveja, vinho, queijo, arroz doce, todos surpreendentemente deliciosos (fujam do de alho!!..hehe). É no caminho de Mèrida até Sao Cristóvan que comecam os atrasos. Uma carreta cai de um dos tantos abismos que é a estrada de acesso e cria uma fila de carros que dura todo o dia - ou cola, como chamam em sólo venezuelano (já na colombia cola tem outro significado...rs) . Para atravessarmos a fronteira da Venezuela com a Colombia, é preciso chegar a Sao Cristovan e pegar um táxi até a cidadezinha de Santo Antonio por apenas 20 mil bolívares (20 reais), por uma distancia de mais de cem quilometros. Chegamos a noite, com a migracao fechada, atraso de um dia. Pela manha seguimos para Cucuta, a primeira cidade da Colombia, já com o preco da comida bem mais amistoso do que na Venezuela. Apesar do peso colombiano ser caro - 1000 bolívares equivalendo a 83 pesos colombianos - o custo de vida nao é tao alto como supunha, principalmente no que diz respeito a alimentacao. Ao contrario da Venezuela, a Colombia tem a sua agricultura bem organizada. Isso é perceptível logo ao chegar no país, pois as montanhas verdes e as plantacoes bem divididas são os adornos da paisagem, e a decoração natural torna-se um consolo para a sequencia de precipícios incessantes. Sem duvida sao as estradas da Colombia as que mais assustam (e isso posso postar com seguranca, pois estou escrevendo do Peru), nao pela guerrilha, mas pelo percurso perigoso e repleto de curvas acentuadas. Eu mesma pensei em passar mal por diversas vezes, mas outros o fizeram na minha frente, precisei dormir para esquecer. Ainda assim, os enjoos valem a pena frente a uma paisagem com todas as suas ovelhas, verdíssimos vales e montanhas, que nao deixa a desejar a nenhum filmeco europeu.

A capital, Bogotá, é belíssima. Fria, a cerca de 2500 metros de altitude; suntuosa, com uma arquitetura clássica. Chegamos em um sábado a tarde e ainda pudemos acompanhar o burburinho da cidade que aos poucos apagava, e eu, deslumbrada, repetia "essa sem dúvida é a capital mais bela, certeza". E todas aquelas calles de sebos, realmente um sonho. Como boas turistas que somos, fomos visitar o maior museu de ouro do mundo, tres andares de riqueza pré-hispanica. Assim como toda metrópole, Bogotá tem seus grandes contrastes, com criancas trabalhando nas ruas, muitos mendigos, drogas, furtos. Nós, por exemplo, tivemos algumas surpresas no hotel do centro da cidade em que passamos a noite. Estavamos em quatro meninas, contando com a argentina que nos acompanhou desde a Venezuela, e todas assustadas por revirarem as nossas mochilas, abrir a porta enquanto dormíamos. Nada roubaram, mas o desgaste emocional foi grande.

O cansaco continuou (aumentou!) na ida de Bogota para Ipiales, quando um desmoronamento de terra bloqueou a unica via e nos obrigou a dormir dentro do onibus na estrada, na fronteira da Colombia com o Equador. A essa altura, guerrilha já era boato, e a preocupacao maior era com um novo desmoronamento ou com as carretas que obrigavam o motorista a estar desperto e desviar o onibus para evitar uma colisao. Passamos o dia seguinte inteiro aguardando as autoridades competentes remover a terra que bloqueava a passagem (nao sei porque, mas quem estava là era o exército anti-explosivos), o que, obviamente, nao aconteceu. O jeito foi colocar as malas nas costas, os velhos nas costas, as criancas nas malas e deslizar em lama por 1,5 km até os onibus que aguardavam do outro lado do tragédia. E como nestes países tudo tem seu preco, desde sacolas plásticas, até copos descartáveis, botas de borracha por apenas um peso colombiano salvavam os sapatos de alguns. Eu fui me aventurar com meus tenis, cheguei descalca e com as roupas cheias de lama. Importante lembrar que foi o dia do aniversário da Juliana, e sem duvida alguma, deste ela nao vai esquecer.

Ainda neste dia, difícil saida da Colombia, dormimos no Terminal de Bus.
Desgastadas...