segunda-feira, outubro 28, 2013

Um crime


Tou me sentindo agora

Com uma arma na cabeça

Não foi carregada - mas está engatilhada.


O som do não disparo

A bala que não perfura

O sangue que não jorra

O grito que não se escuta

O choro que não escorre

A cena que não sucede

O medo que não espanta

A dor que não se sente

Os sentidos que não cessam:

A morte


Com exceção da morte,

A vida

É só o que me assusta.


segunda-feira, outubro 14, 2013

Razão

Notei de longe
Um sorriso que nunca foi pra mim
E hoje o é
E assim é e sem razão
Razão nenhuma me diria
Que há razão pro desencontro
Quiçá pelo beijo que nunca foi teu
E hoje o é
E assim é e com razão
Quiça pelo toque que nunca alcançou
O contorno do seu nariz
Ainda é feito
Das mesmas linhas que moldavam seu perfil
E agora encontra com
Desenhos que o decoram todo corpo
Mas o menino que habitava aí
Agora habita
As mesmas terras de minha morada
Terra de sonho, de vida, de nada
E razão nem mesmo explicaria
Que dois seres tão distantes
Tão iguais, tão diferentes
Uma hora acabassem
Ocupando um só lugar, um só repente
Quiçá nos vastos campos do pensamento
Quiçá em qualquer parte
Se razão pudesse e permitisse
Reencontrar

domingo, outubro 06, 2013

Felicidade

Felicidade,
Vi de perto uma vez
Ao que me lembro é quase-morte:
Dois segundos derradeiros
De pura manipulação e
Coagulação de tempo e sangue
Em coração aventureiro
E, o coração
Do peito prisioneiro
Anula palpitação
Segura respiração
E ele pulsa em insistir
Briga pra escapar
Implode sem sentir
E se no segundo seguinte não houvesse mais vida
Por mim, tudo bem.

quarta-feira, outubro 02, 2013

Liberdade


Liberdade ao contrário
É ganhar de presente uma caixa de sapato
Sem sapato dentro
Com laço de fita colorido
E agradecer o agrado feito
Levado a colocar dentro de caixa
sem sapato novo, o pé
Pra não desagradar o cortesão
Do jeito a manter pé dentro e pé no chão
Lhe permitido um equilíbrio
Mas ter depois sugerido
Que pé no chão não é bom
Pois chão é frio, duro, encardido
Dois pés na caixa é ideal
Dois pés na caixa é tradicional
Dois pés na caixa faz mais sentido
E os ter embalado, apertado, espremido
Os dois pés encaixotados
Como esperava o cortesão
Que nem de pé gostava
Pois, ora bolas,
Se eu não disse ainda
Os pés são meus!
Se vir além do seu umbigo
Na sequencia das pernas
Mais abaixo, contidos
Encontrará seus próprios pés
Atrofiando

domingo, setembro 29, 2013

Uma hora

Demora.

Antes é preciso apanhar da vida,
Cair no chão,
Ter a cara cuspida.
Buscar entender
Recorrendo à magia,
À psicologia
Aos buzios, tarô
Ossos e ervas e
Outros recursos,
Milenar sabedoria.

Antes, dói.
Dói no fundo,
E o fundo do copo
As idéias enebria,
Corroendo futuro,
Premissas e planos
Enquanto boas parceiras,
Velha boemia e
Vã filosofia
Que sempre acolhem, agora
Anestesiam,
Quando esquecer é
Única moeda 
Para a paz interior.

Demora,
Pode até demorar,
Mas uma hora se descobre
E falha a mundial economia em
Não reconhecer que
nada
no mundo é mais caro
Nada é mais nobre
Mais gratificante ou valioso
Nada mais é simples
Mais justo, reconfortante
nada
é mais digno
do que ser
você.

domingo, agosto 25, 2013

Em Fim

Se inda quiseres me ferir,
Nem a ferro ou fogo poderás,
A brasa de minh'alma já virara cinza
Cinza que voa quando venta mais
Se quiseres me juntar,
Não sou caco, sou cinza
Agora livre, voo a céu aberto
Sem norte ou ambição
Me lanço,
De topo de árvore ao chão
E longe dos meus outros pedaços de cinza
Sou fragmento
De nada
Migalha de vento
Parte do pouco que restou
De uma alma estragada

Se mesmo assim
Quiseres a mim
E sais a catar vento por vento
E caco com caco
Cinza com cinza
Me cresço em fagulha
Que me toma por dentro
E minh'alma seca e dura
Velho cinzeiro de sentimento
Por um instante, um momento
Brilha no escuro

domingo, abril 01, 2012

Construção

("Tijolo por tijolo num desenho lógico")


Meu compromisso é comigo. E com as pessoas que me cercam, isso porque me cercam, portanto, é sempre comigo.

Minha sinceridade é pra mim. Não quero me enganar, não mais. Com exceção dos sonhos, que são planos pra um tempo futuro. Mas no presente quero certeza da realidade, qualquer que seja ela.

Desacredito da existência do bom e do mau. Acredito em fatos ocorridos por razões determinadas. Penso que a razão de uma pessoa não pode ser avaliada, assim, nunca espere de mim condenação.

Definitivamente, não acredito que dar certo seja uma questão natural. Nem função do cosmos. Nem conspiração do universo. Dar certo me parece associado à clareza de propósito, dedicação, paixão e concluo isso vendo a vida que se movimenta diante do meu nariz: uma bela casa não é construída sem um projeto, sem o trabalho físico e conceitual, sem a vontade vê-la erguida ali linda por si só, pronta pra ser habitada. Claro que é até possível se ter uma casa pecando em algum de estágio de obra - negligenciando a fundação, por exemplo. Mas, ciente disso, eu ali viveria?

Eu me pergunto e afirmo ao mesmo tempo: estarei pronta algum dia para minha própria construção?! Sinto-me assim, mas esta talvez seja uma obra árdua e demorada. Talvez até venha a ser solitária, possível também que seja triste - são os riscos do projeto. Mas não espero que ela se materialize na minha frente - embora eu adore histórias fantásticas e sobrenaturais. Neste caso, hei de levantar cada muro, pintar cada parede, preparar eu mesma a massa, escolher a melhor telha, até que se erga, feia ou bonita, boa ou má, habitável ou não, mas de pé, sobre os alicerces que eu mesma criei.

domingo, março 18, 2012

Conto para um ego coletivo

O personagem que crio agora não passa de ficção. De tão fictício, não se assemelha a nenhum de nós, nem mesmo a mim que agora conto a sua história e a leio simultaneamente. Nenhum de nós na vida palpável e honrada que levamos, na vida nossa digna da atenção alheia, vida esta inquestionável porque trabalhamos e geramos renda, que é merecedora de créditos porque aceitamos todas as suas regras, nenhum de nós compara-se ao sujeito deste conto. Ao contrário de nós que somos virtuosos e temos motivos para sermos autoconfiantes para o que quer que seja, ao contrário de nós e nossa altivez autorizada, esse personagem vacila.

Tinha medo de formiga e por isso nunca colocou os pés no chão sem chinelos ou meias. Um dia — parece até mentira — pensou uma hora e vinte se comia maçã ou salgado frito e interpretou a azia de depois como sinal da má decisão.
Mas não venho contabilizar aqui as vezes que este personagem vacilou.
(Escrevo sobre ele só para massagear o nosso ego e justificar a nossa segurança)

Esse personagem não é como nós todos que desde cedo aprendemos a ter charme, é coisa ruim, não presta pra isso. O dia que quis cantar de galo na janela de uma moça deixou enrolar a língua numa crise da epilepsia que nunca tivera até então. De charme nunca tinha ouvido falar, nem nunca havia provado disso em boca alguma. Ele, que é um coitado, já teve medo de formiga e quando superou não podia escolher entre comer fritura ou fruta, por toda a vida complicou-se nas conquistas amorosas. Dava sempre um passo à frente combinado com dois atrás, como em uma dança acanhada e descompassada. Era ainda criança quando se percebeu diferente dos outros meninos. Encruado. Havia pensado tanto na coragem necessária para aproximar-se de alguém que a força lhe fugira pra sempre. Os mais velhos da região diagnosticaram espinhela caída como a razão do problema de auto-estima, defeito que levou consigo até o túmulo, assim como o ar de homem intocado, mau agouro que família fez questão de enterrar na cova mais funda para não contaminar menino novo.

Não é exagero dizer que o personagem desta história é do tipo mais desinteressante de gente. Nunca gostou do que as pessoas gostavam, e quando fingia gostar, a mentira não colava já que nem mentir direito era mérito que tivesse, e assim nunca encontrou um grupo de amigos que o aceitasse como membro da turma. Era só o enjeitado, o desgraçado, não ouvia rock and roll e toda nova moda passava dele o mais longe possível.
— Desajeitado e grande demais pra andar com a gente — uns retrucavam.
— Esquisito, espinhento, cheira à Minancora! — no ponto de vista de outros.
As opiniões podiam divergir, porém era consenso não ter alguém como ele por perto. Pois se não tinha nem mesmo bons hábitos: não ia à missa e só conhecia de cor uma reza, ou melhor, meia reza — seu Pai Nosso parou no pão nosso de cada dia nos dai hoje e de lá nunca saiu desde o catecismo.

Seu maior defeito era não ter se tornado um homem firme, e nisso até ele haveria de concordar comigo. Estava estampado na cara magra, na barba rala e nos braços finíssimos, mas principalmente, nos olhos grandes e tristes de quem nunca soube se impor. Nunca soube tomar decisão — lembram-se de quando sofreu com o castigo da azia? À época de escola, se era preciso escolher entre duas respostas da questão de uma prova, optava por deixá-la em branco. Fazia hora até pra escolher uma roupa, ainda que só tivesse dois figurinos no armário — diga-se de passagem, ambos muito específicos do seu tipo de ocasião: uma beca e um bermudão —, de modo que sempre desistia das noites de festa — e adormecia só de cuecas. Deixou muitas outras lacunas em branco ao longo de sua vida — algumas bem mais sérias do que prova de escola ou noite de festa —, como da vez que deveria ter escolhido a profissão. Não pôde se decidir entre escritor ou engenheiro, artesão ou operário, cozinheiro ou exterminador de insetos, na dúvida abdicou dos títulos e por toda vida contentou-se em ser o pau pra toda obra, deixando o destino como principal responsável por seu provento mensal.

No fundo, no fundo, era um grande vacilão, ele bem sabia, e a nenhum de nós interessa uma vida assim tão morna.
(Escrevo sobre ele só para massagear o nosso ego e valorizar o nosso sucesso)

Não tinha frente nem verso esse fictício. Não tinha ordem, início, meio, fim. Cresceu e ainda tinha mania de criança, enquanto que de criança levava jeito pra velho. Um dia desistiu de crescer por não ter força suficiente pra agüentar o tranco: pagar conta, arrumar casa, agüentar chefe chato, pegar ônibus lotado e pagar imposto até pela sua respiração – ouviu alguém dizer que havia imposto até pra isso. Desistiu de crescer e foi essa a única decisão que tomou em toda a sua vida, só não teve êxito porque, como não era muito persuasivo, não convenceu a natureza. E assim o corpo esticou, até o tamanho que nunca quis ter, e precisou, sem saber como, pagar tudo aquilo que nunca foi do seu interesse, agüentar o chefe que não havia escolhido, mesmo ainda sendo uma criança por dentro. No mais evitava respirar, porque ao menos deste imposto era direito seu estar isento. Talvez fosse por respirar pouco — a esta conclusão estou chegando agora — talvez por este motivo tivesse dores de cabeça horrendas, sem ligação direta à doença nenhuma, pois doença era coisa que não pegava. Mas eram dores de cabeça insuportáveis! Vomitava pelos cantos sem que ninguém visse porque sabia que gente decente não vomita tanto — fazia de tudo pra que não descobrissem que sabia que não tinha decência. E quando tudo vinha à tona, chefe chato, contas altas, gente pra conversar, fracasso amoroso, escondia-se mais, vomitava mais. Depois melhorava, tirava um sorriso amassado do bolso e o punha no rosto outra vez. Era assim, um profissional no quesito esconder sofrimentos.
(Se esconder sentimentos fosse uma profissão, talvez tivesse escolhido uma quando teve a chance)

É claro que o personagem pensou várias vezes em morrer e só não morreu cedo porque viveu frouxo o suficiente pra tentar suicídio — teve de morrer de velho mesmo —, e porque gostava da vida apesar de tudo, ainda que a recíproca não fosse verdadeira. Pra compensar a falta de coragem pra morte, escondia-se das pessoas enfiado debaixo da cama por horas a fio. E quando não tinha jeito e encontrava alguém na rua de quem não poderia fugir dos cumprimentos, sentia, como num sonho, como se um buraco gigante se abrisse aos seus pés e ele ali soterraria apenas a cabeça. Só a cabeça, como uma avestruz escondida da vida. Noutras vezes pensou que não queria morrer, só desaparecer por uns tempos, então pensou numa branda doença como a solução mais acertada. E — acreditem — ninguém o queria, nem gripe. Tentou asma, lepra, febre amarela, caxumba, gonorréia e nada: ainda ali são e salvo, a carcaça transbordando de saúde. Desistiu de ficar doente e levou a vida com os espasmos do buraco de avestruz.

Um dia aconteceu de entrar num desses buracos e não voltar mais à superfície. Acabou duro, imóvel, gelado demais, o corpo ganhando um cheiro forte cada vez mais forte chegando ao insuportável. E só por este motivo foi descoberto: seu novo aroma escapava janela afora e confundia-se ao da torta de amoras que uma vizinha exibia orgulhosa na janela da cozinha. Arrombaram a porta da casa os demais vizinhos; revistaram cada um dos cômodos, a sujeira do lugar proporcionando aos salvadores um ar de superioridade inabalável?; passaram por um quarto, dois quartos, três quartos quando encontraram um corpo sem roupas, apenas cuecas, desabado numa cama sem lençóis, sem indecisões, sem impostos ou contas pra pagar; nesta hora o doce cheiro de carne apodrecida? ou amoras? impregnava-lhes a pele e embrulhava o estômago de alguns fazendo com que vomitassem ali mesmo: uma vez — desconectando-os de suas decências —, duas vezes — como em uma dança acanhada e descompassada —, três vez —. viam-se mais, vomitavam mais.
(Buscariam com pressa buracos no chão)

Abandonaram o personagem morto vizinho fictício ainda mais azedo do que quando o encontraram, mas desta vez ninguém se importou. Seu enterro não teve pompa, não teve charme, sem graça como se já não fosse hora, e nem chorar se fez necessário. Só a família compareceu para certificar-se de que a cova era a cova mais funda de todas as covas.

Desde então, enfim, sobramos, fortes no meio de fortes, bonitos entre ainda mais belos, civilizados sobretudo, até apontarmos outro como ele dentre... nós. Outro inseguro, frágil, feio. Um vivo.

(Agnieska)

*texto produzido em 2008 e encubado por mim, agindo como mãe passiva que espera o filho prematuro ganhar força, mas nada pode fazer além de estar em sua companhia.

sábado, março 17, 2012

(des) padronizados

Façamos diferente. Comecemos diferente.
Há toda uma vida para que possamos errar o quanto mais.

Série posts do facebook que não quero perder: 14/02/2012

"Afortunados são aqueles que trabalham até tarde da noite, até cedo do dia se preciso, mas trabalham, e assim aprendem a conviver com o próximo, a conhecer seus limites e a respeitar o dos outros. Afortunados são aqueles que têm amigos que anseiam por sua companhia, que festejam por seus sucessos, riem dos seus fracassos, bebem das suas amarguras, e assim continuam, ano após ano, sempre ao seu lado. Afortunados são aqueles que perdoam os erros dos outros, mas principalmente, perdoam a si. Afortunados são aqueles que tem em casa alguém - um filho, um amante, um bicho - que lhes presenteie com um carinho diário antes que a noite se vá. Afortunados são aqueles que tentam, tropeçam, buscam, caem, levantam e, apesar das feridas que não saram, esquecem tudo e voltam a se aventurar sem medo. Afortunados são gratos por serem como são, desde que não fira a ninguém. Afortunados são os que ainda acreditam no amor incondicional - ao próximo ou não. Afortunados são os que sabem enxergar sabedoria bem no fundo de um olhar cansado. Afortunados são aqueles que conhecem as mazelas do mundo, mas ainda sonham.
Afortunada sou eu, hoje, que celebro a esta graça que é viver e agradeço aos meus companheiros desta trajetória, meus amigos, que tanto gostam e cuidam e zelam por mim exatamente por eu ser como sou - e apesar disso.
Afortunada sou eu, pois vivo."

Texto publicado em 14.02.2012, ao completar 31 anos de pura insanidade. Original e comentários em http://www.facebook.com/profile.php?id=100000932523481&sk=photos/l!/profile.php?id=1380339215

Série posts do facebook que eu não quero perder: 01/01/2012

"Imaginem a cena - utópica, claro. A pessoa programa a passagem de retorno da Europa de forma a passar a virada de ano no seu país, junto dos seus amigos queridos. Chega do outro continente, toma um banho em casa, coloca perfume, vestido, sapatilha de veludo rosa, pega o carro e vai para o sítio onde já estão, desde mais cedo, os amigos. Se perde no caminho para o sitio, já é noite. Em poucas horas, um novo ano começa. Não conhece bem o local, há muita lama e a escuridão não ajuda na localização. Cai num buraco com o carro, primeiro com um pneu e, não contente com isso, cai com o carro inteiro. O lugar parece perigoso, então, saem todos do carro às pressas, afundando completamente na lama. O lugar realmente parece perigoso e o sapatinho de veludo, totalmente destruído, e a roupa suja de lama são os menores dos problemas. Escuta uma música de igreja, corre até ela, é uma casa, pede ajuda com medo do que possa vir a encontrar. E ali toma sua última lição do ano de humildade e confiança no próximo: cerca de 15 homens, saídos de todas as casas daquela rua escura, erguem o carro da vala no braço. Todos os homens, repletos de lama, ficam felizes por terem ajudado. A pessoa que voltara da Europa, repleta de lama, acaba terrivelmente envergonhada por duvidar tanto da capacidade do próximo de ajudar desinteressadamente.
Que em 2012 possamos acreditar que ainda existe altruísmo genuíno dentro de todos nós. E, de preferência, exercitá-lo, mas só acreditar já é um grande passo.
Um feliz ano novo!"

Texto publicado em 01.01.2012. Qualquer semelhança com a minha vida é mera coincidência. Original e comentários em http://www.facebook.com/profile.php?id=100000932523481&sk=photos#!/profile.php?id=1380339215

sábado, março 10, 2012

Denúncia

Sem a minha permissão, meus olhos contam por quais caminhos percorri
Falam das vezes que tropecei, se por isso me machuquei
Mostram as feridas abertas, sujas ainda de sangue
Fazem doer as mesmas dores a quem me olha,
Se no fundo dos olhos me olha e olhos não vê
Vê alma

domingo, junho 28, 2009

Lucidez em surto, vinho e linhas corridas

É humano duvidar da sabedoria da vida. Nos esquecemos dessa inteligência que rege nossos dias e antecipamos acontecimentos, sentimentos, buscamos pra ontem aquilo que nem hoje estamos preparados para receber.
Sonhamos demais, nos precipitamos; tropeçamos nos nossos próprios pés e as feridas que nos machucam os joelhos, muitas vezes, são um mal desnecessário. Nos submetemos às dores, procuramos por elas como masoquistas compulsivos. Não enxergamos um passo a frente do nariz e, ainda assim, somos os donos do mundo.
Só hoje percebo isso, tão tarde pra sanar algumas chagas. As minhas próprias ou as de quando fui eu o algoz.

Não falo isso como quem subestima o poder da dor. A vida, tirana porém destra, sabe escolher as feridas que nos tornam mais fortes e é a dor o maior antídoto para a prepotência humana.
Fortaleço a mente para o combate à impaciência, essa vilã maior.


Aos olhos baços, dou luz: vejo. E não encontro tudo o que preciso para receber o que espero da vida... E são faltas básicas, possíveis de se resolver, o que me faz entender que não há empenho em favor do objetivo, somente feridas superficiais atrasando o percurso.
Encorajo o espírito para o equilíbrio.
Preparo o meu espaço, que é a parte que cabe a mim; sirvo outra taça à mesa.
Confio à vida o tempo e o sucesso.

sexta-feira, junho 26, 2009

Sobre 'Um Conto de Ônibus'

'Um Conto de Ônibus': está aí o conto que nunca foi meu favorito, mas faturou dois prêmios nacionais, um no ano de 2007, realizado pela secretaria de cultura da cidade de São Sebastião do Paraíso, em Minas Gerais, e outro em 2008, promovido pela Fundação Cultural de Canoas, Rio Grande Sul.

Em Minas Gerais, a premiação foi um fiasco. Ganhei uma plaquinha e um certificado via correio, como prêmio de consolação. Nem ao telefone ganhei grandes explicações sobre a divulgação do conto no site da prefeitura - a organização do concurso se comprovava cada vez mais especializada em desorganização de concursos. Porém, na última seleção, Canoas cumpriu com todos os prometidos do edital e, agora, 'Um Conto de Ônibus' tem duas páginas na coletânea dos selecionados na edição do ano passado (categorias conto, poesia e crônica). Meu nome está lá, singelo, ostentando menção honrosa na categoria conto. Os cinco exemplares da publicação a que tive direito são, pra mim, como uma prova de que preciso vencer o medo da exposição e acreditar um pouco mais naquilo que faço com tanto prazer.

Mas, ok, se este conto não é meu favorito, por que o escolhi para os concursos? Na verdade foi por, na época, eu sentir que ele estava pronto, rendondo, com início, meio e fim bem encontrados e, principalmente, por ter ritmo próprio. Acho que é isso, a coisa do ritmo que agradou as duas bancas, porque não vejo nada de especialíssimo nele em conteúdo. Mas o ritmo sim: adoro ler, reler e ler outra vez - aos meus olhos e ouvidos, sem modéstia, este conto cai bem.

Pra quem ainda não leu, segue 'Um Conto de Ônibus' publicado no ultimo post deste blog, para apreciação (ou não, hehe), em espaço livre para julgamentos.

Sofia

Um Conto de Ônibus

Teve uma noite que preferiu dispensar a carona habitual e tomar um ônibus. Precisava ver gente, ouvir outras vozes, fazia tempo que não fazia absolutamente nada diferente. Era tudo do mesmo jeito, casa, carona, aula, cabelo, conversa, banho, sem tirar nem pôr coisa nenhuma, numa rotina inteiramente adequada ao padrão de vida e idade atuais. Via-se: uma avalanche de percepções que tão mal se ajustava ao cotidiano encaixotado em que estavam trabalho, sapato, tempo, leitura e afago seus; valores de ponta-cabeça; emoções contraditórias; era, sim, um grande amontoado de substantivos mais-que-abstratos. A solução para a dispersão, muitas vezes, encontrava na gente aparentemente menos atordoada, com preocupações supostamente condizentes com os seus cotidianos. A verdade é que não fazia bem a ela ver os problemas alheios, mas era um tratamento de choque indiscutível, algo como um puxão de orelhas bem dado ou como sentir amarrar-se a um peso que faria suas pernas tocarem outra vez o chão. Não que não tivesse suas próprias preocupações, tinha as contas do mês e as aulas de inglês, o cano quebrado no banheiro, a linha de telefone cortada quase toda vez e a chave de casa perdida. Mas nem a festa para a qual não havia sido convidada, nem o cobrador do aluguel, nem a despensa vazia, o cansaço, o pouco dinheiro, nada era suficiente para fazer ater-se aos problemas reais e nisso criava motivos para substituí-los: quando o cachorro morreu, aprendeu a fazer salgadinhos vegetarianos como ninguém; começou a estudar hebraico via internet assim que pifou o motor da máquina de lavar roupas; nos dias de trabalho chato conseguia pensar nos detalhes da viagem que faria um dia, sempre sem data prevista; e quando o namorado foi embora, preferiu fotografar.

Precisava era de um ônibus empanturrado de anseios comuns, gente cansada e suor.

Deu sorte que parou o mais cheio. Alguém logo se ofereceu para segurar a bolsa, gentileza comum entre passageiros de ônibus que para ela soou mais como um termo mudo de cumplicidade: esteja à vontade para observar. E assim esteve até seu cúmplice silencioso descer do ônibus, dando-lhe o lugar e um pouco mais de espaço naquela noite. Sentou-se. Ao seu lado, um rapaz com menos de vinte e sete, estudante talvez porque levava uma mochila e um ar despojado que se manifestava na combinação barba rala e camiseta estampada com motivos indianos. Nos olhos, no entanto, ele se mostrava sério, mas podia ser que estivesse na ala dos cansados e indispostos, assim como a maioria que ali estava, seguindo apático durante a viagem até que. Uma moça entrou, vestindo o uniforme da guarda da cidade, paradoxalmente pequena e frágil, dona de um loiro no cabelo que gritava com as raízes escuras expostas. Esta também levava uma mochila nas costas, porém a dela não lhe atribuía um ar jovial, mas se impunha com um cacetete que mal cabia inteiro dentro da bolsa.

Dispuseram-se, o rapaz da camisa indiana ao lado da janela, ela que havia dispensado a carona na cadeira do corredor e a moça guarda da cidade em pé bem na frente. Nessa viagem ela esteve no centro, separando os dois corpos, um pouco desconfortável, sem, porém, pensar em quão cômoda teria sido a sua carona. Deixou de existir a partir do primeiro encontro entre os olhos do rapaz da camisa de motivos indianos e os da moça guarda municipal.

Levantou da cadeira sem que rapaz nem moça percebessem sua ausência ou presença, puxou a cordinha, desceu do ônibus já em frente à casa. Da rua podia ver a cor azul da televisão tomando toda a sala. Ali se lembrou do banho, do tempo, do afago, do telefone cortado, dos olhos que se encontravam há pouco e deu sinal para outro ônibus.

(Agnieska)

sexta-feira, maio 29, 2009

Disturb the sound of silence

As vozes se calam lá fora. Não mais ruídos das casas; chamando na janela, nem cigarra. A lua muda traz consigo o silêncio e o põe pesado sobre nossas cabeças.

Só eu agora e caneta, em eventuais pequenos ruídos do arrastar de mão no papel ─ a noite não cala meu peito.

Pudera calar-me também, noite! Emudecer essa voz que me vem de dentro. Aninharia meu sono no seu vazio, e eu, pela primeira vez repleta de paz, dormiria pra sempre.

sábado, maio 02, 2009

Estranho

Não o conheço
Mas suas mãos se apresentaram às minhas
E eu não soube evitar o conforto
Destruindo cada camada da minha casca dura
de mulher independente, consequente,
Carente em desestrutura

Quando a gravidade de minh’alma
Dita por suas mãos tão grandes,
Fez cair pedaços de mim sobre mesa de bar
E eu, crua e nua,
Despida de mim na frente de todos
Escondia-me dentro de um gole de gin.

Tão péssima quando eu mesma!
E você chamaria isso de único?
Você, uma escola,
de percepção, aproximação,
Se diria sem lugar em lugar nenhum,
Enquanto suas mãos encontrariam abrigo
E o peso de suas pernas descansaria comigo

Além da linha que eu impus entre mim e qualquer um

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Descoberta (o título emerge das palavras maturadas)

A beleza como é
Vil companheira, esconde-se

em olhos de mulher, permanece

adormecida ― anos, décadas,
por vidas não se faz sabida,

Até, cedo, ou vez tarde,

Mostrar-se em sua forma plena:
Incontrolável, ensandecida,

Toma toda ela corpo e rosto de menina,
Modela graça, dá-lhe ares de felina,

Implode em desejo,
A nua carne contamina
sangue, pele, pêlo,

De maligna ternura.

domingo, dezembro 21, 2008

Cura

Salto, de um estado a outro, num

Pulo - foi mesmo assim,

Como se quebrasse um muro

(sem suor, medo, força),

Como se dormisse uma e despertasse outra

E logo e enfim, livre de mim,

Encontrasse Chama ainda,

Pequena e cintilante Brasa ardente,

E Cinzas, marcando trilha à frente.


Os anseios que encardiam, ontem, Cama e Alma,

Dormem.

quinta-feira, dezembro 11, 2008

Transitório, o Retorno

Mais uma vez abandonei o blog. São espasmos que me dão, vivo oscilante entre a vontade desesperada de escrever qualquer coisa e a preguiça incondicional. Creio que a fase atual (férias chegando, provável sol e pé prá cima) colabore para que eu recupere o meu fôlego de escrita (mmm... passar as férias de final de ano duranga em casa me parece realmente inspirador...rs).

Enquanto ela não vem (ela, a fase criativa), resolvi postar dois continhos, os quais mantinha há meses em um pen drive, transitando, diariamente, de bolso de calça jeans para estojo de lápis na bolsa ou compartimento de mochila. Pensava em melhorá-los ainda - final ali, início acolá, talvez uma porção menor de confusão nas histórias -, mas agora expirou a garantia do fabricante. Seguem original de fábrica, portanto, 'Cecília' e 'Tempo de um beijo só', este último produzido a partir de algumas percepções já postadas no mês de março deste ano ("não havia retrato no qual coubesse aquela manhã...").

Com o retorno, aproveitei para completar o perfil no blog com foto e pá-e-bola (que cara dura!). Não se assustem muito - se alguém passar por aqui e resolver dar uma espiadinha -, só achei que, depois de alguns anos de blog, chegava a hora de dar nome aos bois, ou melhor, cara aos bois. Na figura, a boiada inteira de uma vez: teo (de 'fábulas do teo') e eu.

E, claro, não podia deixar de comentar sobre a menção honrosa na categoria contos com o texto 'Um conto de ônibus' no concurso nacional organizado pela Fundação Nacional de Canoas - RS. Dessa vez - torçamos para que seja mesmo verdade -, parece que vai rolar uma coletânea com os selecionados do concurso e, adivinhem, eu tô nessa. Demais!rs

Bom, caríssimos, as observações, sugestões, críticas e xingamentos estão totalmente liberados, óbvio!

Grande beijo,
Sofia

Tempo de um beijo só

A luz do sol surgia, contrariando todos os desejos, sem conseguir dissipá-los. Do rosto mais claro pela manhã, era ela: mais moça, sabida de astrologia, um pouco também de fotografia; mais boba, mal escondia a ansiedade. Dos olhos confusos pela hora, estava ele: mais vivo, cabelo longo desalinhado pelo cansaço, sabia de roteiro de cinema ou de turismo; fios brancos na cabeça envolta por idéias pudicas e outras nem tanto.

Diferentes os dois, é provável, mas se ainda estavam ali juntos, àquela altura da hora, o tempo brigando com a conversa sem conseguir inibi-la! Sobre a copa úmida da castanheira que os abrigava só a luz de um sol recente, enquanto todo o chão da praça decorava-se das silhuetas dela, das folhas, dele, dos pássaros.

Na noite de antes daquela manhã, haviam se entreolhado desde o princípio: ela reparava no jeito meio sem jeito dele de dançar, ele não levava relógio; ela preocupava-se com as horas, mas ele a percebia dançando sozinha uma música alta demais na hora exata da noite. Teriam conversas tão altas e tão perto, não tinha outro jeito senão tão junto; seus rostos escurecidos ora clareando-se pelas luzes negras do lugar; os olhos, certamente, luminosos. Desde este instante falariam sobre o horário da noite, a música, a vida em geral, mas especialmente sobre a possibilidade de continuarem falando e olhando e assim tão junto e tão perto por algum tempo mais.

De vestido curto nem largo nem justo modelagem retrô e faixa nos cabelos, estava ela; ele, óculos de grau e calça com cinto metalizado estilo undergroud. Diferentes os dois, é possível, só que de lá sairiam juntos, não tinha outro jeito senão tão juntos, ou do contrário haveria o risco de perderem a hora certa daquela noite.

Do carro, um modelo nem novo nem velho azul-marinho como aquela madrugada, os dois passeariam cidade afora, apesar das diferenças entre eles, apesar do tempo: para início, cairiam num reduto de música duvidosa, mas a música, assim como a hora, havia perdido a importância; cortariam muitas ruas silenciosas, vez divagando histórias sobre a cidade adormecida, vez tão mudos quanto ela; até encontrarem abrigo no bairro mais boêmio, onde cada vez mais surgiriam histórias sobre a cidade ou sobre a vida pra contar — o universo, ela viria com essas definições sem sentido pra ele, seria o universo contribuindo para especializar o pouco tempo juntos.

Ali o dia viria regado às conversas mais íntimas, separações, profissões, desilusões, confissões e cerveja bem gelada. A luz, aos poucos tomando o espaço, enfrentaria os desejos, e os dois, já resignados com a hora, sairiam à praça a apreciar os pássaros que se multiplicavam com o raiar do sol. Nesta hora exata — o sol iluminando os rostos e a copa da castanheira desenhando no chão da praça contornos de folhas e corpos e pássaros —, nesta hora exata os dois já se conheciam tanto apesar do tempo e tão pouco pelas diferenças que ficou impossível de segurar. O beijo, que duraria só o tempo de o relógio rodar novamente, deixando a hora tão pequena que não houve jeito de.

(eu mesma, vulgo Agnieska)

Cecília

Cecília entrava na casa dos trinta. Acordou tarde pra enganar o dia, mas o calendário pregado na porta do quarto denunciava em vermelho que aquele era, de fato, mais um aniversário seu. No espelho do banheiro tinha refletido um rosto pálido, murcho, manchas saltando aos olhos, uns fios de cabelo já brancos. Acendeu um cigarro, deixando no ar mais turvo a sua imagem mais deprimente.

Não tirou o pijama. Não se lembrava, mas a peça fora presente do aniversário de dezoito. Tirou nem meias e as arrastava pelo piso laminado de madeira que lhe havia custado as economias dos últimos anos, única decoração do apartamento de sexto andar que habitava desde os dezoito.

Cecília só fez um café. Forte, ao menos. E o combinou com outro cigarro. Longo, Plaza. Curto, não sabia fumar até o filtro. Apagou na pia da cozinha, a guimba flutuando na louça suja amontoada.

Jogou-se, primeiro no sofá. Depois na rede, também de novo na cama. Levantou só pra checar se o telefone estava mudo, se a secretária eletrônica havia pifado, se o interfone do prédio funcionava, se o celular ainda tinha carga. Tudo em ordem, então, jogou-se outra vez, rede cama sofá novo Plaza entre os dedos.

Cecília mal teve namorado, assim como dinheiro, prazer, sucesso ou conquistas, tirando o piso laminado de madeira. Tirando o Márcio, quem a presenteou com o pijama pouco antes de sumir com o mágico do circo que passara alguns meses na cidade. Tirando o emprego de assistente administrativo na prefeitura desde os dezoito e os dois maços diários de Plaza. Tirando o piso laminado de madeira.

Amigos não teve mesmo. Filhos, família, inda menos. Isso tanto que fazia trinta e ninguém ligara ou tocara à porta. Tirando o grupo de testemunhas de Jeová, ninguém chamara ao interfone naquele dia.

Fumou outro cigarro e, por fim, jogou-se, primeiro no sofá. Em seguida na rede e de volta à cama. Depois da janela, cuidando pra que não arranhasse o piso com o pulo.

(Agnieska, vulgo Sofia Giambarba)

domingo, setembro 21, 2008

Escritos on the rocks sobre confusões com dois cubos de gelo

(História pra boi dormir)

Um gelo na espinha: são os nossos olhos que se buscam ― e se esquivam, ao mesmo tempo. E o sorriso, esse seu sorriso de canto da boca nos cafés da manhã, logo abaixo dos olhos ainda vermelhos do sono curto, logo acima do. Queixo, caído por você eu sei.

Não sei se sabem por aí. Finjo fingindo que não há nada, enquanto você finge ainda melhor do que eu, pois sou péssima mentirosa. Já você é bom nisso ― no quê mais? Suspiro. Fingimos juntos à toa se não há nada a esconder ― e o quê seria tudo? Quase nada, pra mim, é tanta coisa; meia dúzia, então, é mundo inteiro...

Fecha as portas do seu mundo enquanto é tempo, que eu ainda pretendo ficar de fora ― não sei se quero. Nem sei se devo, mas creio que devesse. Meu peito é que é bêbado, doente, cruel, traiçoeiro, e agora teima em apertar-me por dentro sem pena nenhuma.

Dor no peito é coisa pouca. Morria dessa dor, se deixasse. Muito pior é o espasmo. Ou a indiferença. Ruim mesmo é um ponto final mal colocado no texto ― ou seria vírgula? Sei dizer não, queria texto corrido cheio de pressa.

Olhos vendados eu queria, adrenalina pura, estrada comprida cheia de curvas eu queria, asfalto novo permitindo velocidade: gelo na espinha. Carona? Sozinha nessa me dou muito mal ― não tenho brevê de piloto, senso de direção muito menos.

Ouço a música alta da estrada, mas você dança o silêncio.

(...)

Canta pneu ou canto eu essa música que eu canto todo dia pra embalar você. Digo de mansinho, pedacinho em pedacinho, e você presta atenção em cada verso pra parecer que é ainda mais esperto no quesito coração. Salta ligeiro quando chego perto, só não sabe você, pobre sujeito, que certo mesmo é que eu perdi isso que se guarda no peito, e você que ainda o tem jovem é mais vítima que carrasco desta canção.

Mesmo assim, tem dó de mim... E segura meu canto nesse espaço vazio.

domingo, setembro 14, 2008

Apago

Apago
No sono.
Cansei de tentar,
Outra vez, cansei
Tem aí uma pílula de ânimo?
Coisa rápida
E quente, pode ser
Estou topando o que for
Cansei de esperar
Fazerem por mim
Gostarem de mim
Aceitarem, por fim, o meu tipo de
gente romântica
Doença maldita
Praga incurável
Apago
O cigarro
Acendo mais um, pra queimar
Caloria,
Arritmia,
Melancolia
E esse jeito de gente
Que arrisca a cabeça
Quando pode esconder
Apago, se pudesse
Apagava
De uma vez apagaria
Da cabeça essa idéia
Que me tira da cama
Então,
se der, outra vez,
Apago




segunda-feira, março 03, 2008

Não havia retrato no qual coubesse aquela manhã. A praça em que os dois estiveram era grande demais para uma foto. Pelo menos um dedo do colarinho do chopp de cada um deles ficaria de fora da figura. A criança na praça era muito ruiva, era lindíssima, e havia acordado tão cedo pra brincar com os pássaros que, provavelmente, acabaria de fora em uma fotografia só. Tudo ali, aliás, parecia muito maior do que poderia pintar. Se pudesse ter a foto da manhã, nada deveria deixar faltar, se sorriso ou vergonha, cansaço vencido, bocas ou caminho, do contrário haveria o risco de perder a hora exata do relógio que faltou na noite anterior.

Na noite de antes daquela manhã, a hora certa não tinha segundo nem minuto, porque já era tarde demais pra isso. Era uma hora cheia e muito maior do que esperava, mas não é possível estimar o momento exato em que o ponteiro parou. Já era noite demais, escuro demais, o bastante tarde pra voltar no tempo e não perguntar que horas poderiam ser.

Apenas poucos números e letras ficariam, soltos numa música alta demais na hora certa daquela noite, e nem mesmo os mais medíocres puderam se perder.

No seguinte veio o espanto, sem bruma, só susto, e se algum dos dois acabou se perguntando baixinho que coisa ali fazia, nessa hora exata o ponteiro do relógio que não existiu antes voltou a funcionar, deixando o tempo tão pequeno que não houve jeito da dúvida seguir ninguém.

O relógio rodou, mesmo sem convite pra essa história. Não houve tempo, então, ninguém tirou fotografia nenhuma daquela manhã. Cada quadro possível mas não feito, agora, aos poucos, teima em desaparecer por detrás dos olhos, atendendo aos apelos do tempo, soberano
.

terça-feira, janeiro 08, 2008

aqui, presos

Taí, passamos os dias em busca de alguém alguma coisa que nos faça sorrir e de quebra nos deixe descansar a cabeça nos ombros e às vezes ainda converse sobre um tempo futuro ou passado em que estivemos estaremos juntos. Mas não lhe parece boa pergunta a que questiona o porquê dessa procura se no fim das contas estamos todos presos em uma vida real nuclear individual particular e todo contato é só casca? Explosões internas só nossas isoladas por uma camada externa de nome corpo.

segunda-feira, janeiro 07, 2008

já não há muito

Já não há muito lá no fundo, depois de tudo, depois daquela dureza toda que foi um dia a vida. Depois do choro forte e de tirar a força sei lá de que parte da alma pra seguir assim, a incompatibilidade irrevogável sobrou como um consolo. E ainda ela, incompatibilidade amiga, agora que era graça, agora que era amiga, trai.

Ouça, não se deixe enganar por esse ser sociável que lhe fala. Daí de fora, dessa perspectiva, só dá pra ver de mim mais de todo mundo do que realmente o eu, porque eu-só vivo aqui dentro. Eu-estranho fico aqui só, na parte de dentro de mim, e não sei se há jeito de chegar até aqui.

Não sou especial de nada, porque quase não sobrou coisa pra ser assim depois de tudo, mas se olhar no fundo... ouça, se olhar bem no fundo dos olhos, um traço de faísca anúncia a incompatibilidade em risco. Logo agora que ela era graça amiga.

Ouço, ouço com clareza o que daqui eu digo pra mim mesma, pra me certificar de que escutei tudo o que preciso saber sobre o eu-só e não esquecer de quem sou realmente. Só não se deixe enganar por mim, oras! Se quiser, bagunça tudo o que sei, anda! Sei muito pouco sobre mim e o pouco que sei não faz sentido nenhum.

Eu já disse e ninguém acredita, inclusive eu já desacreditei disso também, mas sou duas pessoas em uma, a que vive a cara de todo mundo e a outra que só sai de dentro de mim pra morar aqui no papel.

quinta-feira, janeiro 03, 2008

Jogo da Criança Grande

Se topasse com o mesmo sorriso livre, branco, nobre como aquele que ganhei noite dessas,
As minhas aflições, num pestanejar, virariam bolas de gude em mão de criança,
E aí tanto faz se o jogo é à vera, ou se na brinca guarda todas elas como se fossem pequenos tesouros de vidro.

terça-feira, dezembro 25, 2007

Escrever

Parte I

"Só me resta escrever, já que não posso me livrar dos pensamentos, essa montoeira de questionamentos egoístas que me assola os dias; já que não encontro pra mim papel social de importância; se termino sempre fora das lutas humanas que valem a briga - porque não devo ter tino político ou de guerra, o que é uma das minhas verdades vergonhosas; já que não tenho utilidade que me dignifique com o mundo; só me basta escrever e tentar semear ao vento a minha parcela de dúvidas e agonias mais íntimas. Talvez assim o tempo vire, e a brisa retorne suave, algum dia"

Recuperação de um post "espertamente" deletado por mim.



Parte II

Tenho sido questionada com freqüência sobre o que (afinal!) escrevo, especialmente após a academia de Paris ter me concedido um prêmio (ahuahua...desculpem-me, é só uma pitada de autoflagelação). Das primeiras vezes não tive resposta pra dar – se não é possível considerar como resposta a cara de pateta peculiar aos que não têm o que falar sobre o que dizem saber. Na falta de algo melhor, resumi que escrevo sobre as minhas percepções, sem assunto específico, sem estrutura predileta ou formato padrão. Não encontrei um nome pra isso de "jogar letras" no que não sei falar com palavras ditas, mas no fim das contas é isso, escrever acaba sendo somente isso pra mim: letra praquilo que não consigo expressar boca afora. Sem dia marcado, se aperta a dor no peito ou quando a minha cabeça flutua tão ligeiro que acaba fugindo da órbita. Com dia marcado, se um tema cresce tanto em mim e fica por dias maior do que eu mesma pedindo também espaço pra si numa folha de papel (ou arquivo de texto, já contei aqui sobre a minha entrega plena virtual?).

Se chegou nesta linha do que digo descontente com a explicação esfarrapada acima, ainda há alternativa, faça a sua escolha e entenda os motivos que me fazem não mais abandonar a escrita despretensiosa. Escolha. Aconchegue-se aqui na minha alma, que eu posso ser conforto. Ou aborreça-se aqui com as minhas letras, perceba o que nos cerca quieto, deixa doer o tanto quanto é capaz de sentir. Permita-se a dúvida, o medo, permita-se um pingo de incoerência, que loucura no papel é inocência, não passa de gin e blues, combinação perfeita. Sinta comigo com que velocidade o sangue me percorre quando consigo trazer para uma frase um sentimento que de pequeno passava os dias calado escondido atrás dos ombros. Para essa minha vida eu escolho contar sobre a loucura tímida, sobre o sentimento guardado, sobre a combinação gin-blue-sangue, e só por isso escrevo agora e a cada dia um pouco mais, pois não sei mais ficar bem se não puder dar vida ao que está quieto e tão grande, tão bonito e morto, vivo sim, comigo.

segunda-feira, dezembro 24, 2007

em 24.12

Já tentei desistir, mas me recuso toda vez, ser teimoso que sou. Tem essa persistência idiota que me mantém de pé, é tudo culpa dela. Odeio, às vezes odeio profundamente esse meu otimismo burro. Sem ele, não haveria espaço para as expectativas e a vida poderia ser sempre nula e calma - os medos adormecidos não pinicam possibilidades. Se pudesse escolher, juro que faria a opção de não ser assim tão otimista com tudo. Veria, com os dois olhos bem abertos eu teria ou só o preto ou só o branco, sem chance de transitar pelos dois e acabar de frente outra vez com o meu cinza cotidiano.
Parece tão mais simples abrir mão das vontades, buscar apenas o óbvio, entender o superficial das mensagens e ficar contente com isso. Por fim eu poderia aquietar-me, ai como poderia anular-me e lamentar as possibilidades numa barra grande de chocolate ao leite sem marca mesmo.

sábado, novembro 24, 2007

em 24.11

Estou longe, cheia de palavras vazias falando alto na minha cabeça. Recesso intelectual absoluto. Daqui do alto, do décimo em que estou, gritei, esperando que o meu nada ecoasse andar abaixo, mas ele é mudo e fraco. É feio, guardei na mala só pra mim e vou levá-lo pra casa assim que voltar.

Lá embaixo, são as luzes, as buzinas e essa gente que segue, a expressão real desse mundo todo em que estou e não.

Vou descer agora e me misturar às cores.

quinta-feira, outubro 11, 2007

Essa falta, Meu cheio

O que me falta, não sei
não encontro o que me sangra
se tenho casa, comida, roupa lavada
em quero agora canto melhor pra viver
não faz sentido esse nó
bola de pêlo garganta abaixo
ou o vazio que é aqui dentro
onde não há nem dor nem cor
escala de cinza,
única palpitação

É, sim, certo
tenho mais do que mereço
não quero mesmo reclamar
filhos lindos,
pouca prata,
bons amigos,
até um cão que me receba em casa,
que mais haveria de querer?
É ingratidão, acusem logo
me entrego, sou culpada
prendam, atirem uma pedra
porque se tive escola e emprego
decentes
internet, fax, emepê três
que direito tenho eu
de dizer agora desse
choro contido
vontade doída, me arranca
desse peito
que eu cresci mais do que a fôrma
não caibo mais nesse corpo
nessa casa, nessa escola
nesse choro

Me dá, meu deus, outra cara
se caras eu tenho tantas
tenho sorrisos se preciso
sei cedê-los sem vontade
gentileza me sobra, e a
grosseria vem de brinde
não há aqui, será
uma cara sequer que engane a mim mesma?
Pois se tenho várias caras
por que não uma pra mim?
Uma que diga: levanta,
bom dia,
você adora isso tudo!
Uma que me engane
e conforte
satisfaça,
do jeito que outras caras minhas
fazem a uns
e desfazem a alguns
sem vergonha,
dó nem piedade.

terça-feira, setembro 25, 2007

mundo corporativo 2

Tomada I, ponto de ônibus: Bom dia/Bom dia, perdeu o ônibus ontem, né?/Não, eu tirei o dia/ Em plena segunda? Nossa, eu ainda chego lá/ Pois é, era pra ser na terça, mas tenho uma reunião, o pessoal que trabalha comigo pediu para trocar/ Ah, tá, pensei que tivesse acordado atrasada de novo/ Não, só combinei de tirar o dia. Tomada II, embarcando: Bom dia, crachá?/ Bom dia, motorista, estou sem crachá, acho que deixei na mesa do trabalho na sexta/Eles agora não deixam embarcar sem crachá/ Ok, mas eles quem que eu falo com eles?/ Eles da portaria, vai ter que descer lá e depois seguir a pé/Ai, não posso descer lá, tenho reunião bem cedo, depois eu volto pra passar o crachá na portaria/É melhor, senão também não vai almoçar. Tomada III, no ônibus: Outra vez sem crachá.../Pois é, não sei onde está a minha cabeça/Não sei como você esquece o crachá sempre, eu nunca esqueço o meu crachá. Tomada IV, a viagem: Por favor, você poderia fechar a janela? Aqui está muito.../ PAAAFF!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!/...frio. Tomada V, outros passageiros: Ontem a manicure não me atendeu não sei o que eu faço como vou trabalhar com a unha horrível assim alguém precisa me ajudar acho que vou ligar pra dona fulana você viu o sapato que aquela consultora usou na semana passada nunca vi coisa mais ridícula ela se acha a tal mas é uma baranga eu não estou suportando mais as crises daquela secretária ela acha que é a chefe do setor mas comigo não e aquela papelaria queria cobrar os meus olhos da cara mas comigo ela também não pinta e borda meu marido vai trocar de carro e eu já avisei tem que ser mais esperto pra não ficar pra trás. Tomada VI, pensamento solitário no setor: Quem mandou ser metida à besta, mania de originalidade? Agora inova mesmo, faz tudo sozinha, espertinha. Tomada VII, pensamento solitário no setor: batatinha quando nasce se esparrama pelo chão. Tomada VIII, o retorno: Alow, é da central, eu queria saber se hoje tem algum táxi saindo aqui da empresa à tarde, queria aproveitar para uma carona, preciso chegar um pouco mais cedo/Não, nenhum. Tomada IX, equipe: Ei, acabou de sair um táxi da central aqui do estacionamento, ligou pra saber se tinha algum que você pudesse aproveitar? Tomada X, ação: Amanhã de novo às 6h, ok?

domingo, setembro 23, 2007

minha dor maior

Acordei engasgada, e isso precisa sair daqui antes que acabe comigo, antes que eu vire abóbora ou que esqueça essa dor - porque eu sempre esqueço as minhas dores, mesmo quando quero guardá-las na última gaveta porque são boas dores de se sentir.

Mas essa dor, essa dor enorme que é a minha vontade de escrever eu duvido muito que me largue, preciso dominá-la. Ela é gigante, e eu não sou ninguém. É a aflição maior. A vontade de escrever é o sofrimento mais duro que eu já senti na vida. M
e sufoca, chega na garganta e não me deixa respirar. É dor que se embrenha e não consigo dar freio. É solidão absoluta e multidão. É a tristeza profunda na alegria mais íntima. É a certeza de nunca conseguir explicar tudo, nem pra mim mesma. Um estado de encantamento arrebatador e invisível. É a contramão da vida normal.

E eu por aqui só quero gritar...

sexta-feira, setembro 21, 2007

rendez-vous

me vale, essa objetiva olho-de-peixe pela qual avistei
um você esquivo
encontro despretensioso no estacionamento
subida de escada
cabeça bem baixa guardando curiosidade

se abre, me percebe logo!
o fundo músical demodé que arrumei não é de todo ruim
é original, indiscreto, urgente
henri salvador

subjugação muda e mútua
concorda, esse meu tempo clandestino pra você engana o ceticismo?
e essa gente toda?
não me importam
só acompanho com olhos mortos algum movimento
chamando atençao de nao-sei-quem porque a minha está perdida
a minha atenção está perdida
não sei se em alguma mensagem nossa:
fotografia em preto e branco que ninguem bateu

quarta-feira, setembro 19, 2007

melhor convite

Se estou mais pra presumida
e devo estar por não deixar os olhos onde deveria

ou porque vejo o depois, o mais além, menos o agora
Se sou mesmo mais pra prepotente
e isso é verdade quando não quero o que posso ter
e se pra mim nunca tem graça o que por aqui é venerado,

Se assim é,
E já que sou assim mesmo,
Que mal há em dar uma de ana c. e me bastar com o convite de uma folha em branco?

mundo corporativo

Agora tenho aqui um arquivo que não me agrada em nada, porque nem de cores ele soube nascer bonito pra merecer minha atenção. Ainda feio me fizeram dez planilhas dentro dele, cada qual com uma quantidade estupenda de informação e falta de senso estético. Minha tarde eu gasto no arquivo importante, os dedos eu uso pra corrigir qualquer coisa que não vai mudar o mundo nem o meu dia outra vez. Estou aqui de novo, só a cabeça que não, desde cedo ela não quis ficar, então eu disse, vai cabeça, foge pronde quiser em verso ou prosa que eu não conto pra ninguém que você faltou hoje e na hora certa bato o seu cartão.

segunda-feira, setembro 17, 2007

(ficção)

Foi. É claro que esperei por você outra noite mais, assim como também esperei enquanto o sol ofuscava a nossa conversa quase muda num papel impresso. Isso é insanidade, dizem, ou tinta preta borrada e só.
Esse lance de virtualidade, informalidade, espiritualidade e conexão, isso quase não combina mais, virou desculpa pra aquecer o frio bem mal aquecido. Com a gente não funciona, não é mesmo ou sou eu que quero você do lado de cá a qualquer custo?
Daqui eu diria, sai daquele lado, vem aqui pra esse que não vai faltar nem pão nem ombro quando quiser fechar os olhos e esquecer que é vivo por uns instantes, vem e vem de uma vez, só olha pra trás pra guardar no bolso aquilo que encontrar espalhado no chão e respirando e sorrindo pra nós.
Ganha coragem e troca tudo, escuta o que as linhas tortas que eu escrevi noutra vez querem dizer, pois se sucesso eu não posso garantir, ao menos dou a certeza do meu colo, filme, pipoca doce ou salgada combinando com a trama.

terça-feira, setembro 11, 2007

em: mudar

Troquei as roupas e as cores deste blog, o ouvido treinado pelo deboche, o jeito de sorrir pra dentro que este times new roman não deixa esconder. Vou escrever de trás pra frente, em zig-zag depois, pra já não ser mais como sou. Prefiro ser de trás pra frente, em zig-zag depois, a ter que escrever com a mesma tecla que eu escolhi e nem vi. Etnerf arp sàrt ed rev axied em.

sexta-feira, agosto 24, 2007

Los Tres


Não atendendo aos pedidos de manter o pudor com o gosto musical, falo agora sobre Los Tres, outra banda com direito de acesso ao "repeat" do meu Media Player (media player sim, estou aceitando doações de Ipods, hehe). Imagino que lerei novamente os comentários "não conheço, nunca ouvi" e, acreditem, isso não é um grande susto. Explico o motivo: por um lado, a mídia que temos colabora com o bombardeio dos enlatados musicais; por outro, nos conformamos com isso. A coisa agrava muito quando se trata de hermanos latino-americanos - como os chilenos de Los Tres - que, apesar do sucesso que fazem ou fizeram em seus países, continuam restritos à área de terra destinada à América hispânica. Longe de ser uma crítica aos enlatados em questão, a intenção aqui não é, de jeito algum, citar bandinhas desconhecidas da mídia para caracterizar excentricidade à dona do blog e emitir um atestado de desinformação aos poucos (pouquissímos??) leitores, como alguns blogs preferem fazer. Acreditem, eu também acho um saco ler os textos sobre musicas fritas de blogueiros que querem transparecer que bandas inglesas, suecas ou da ilha perdida de Atlantis sentaram no sofá de suas casas ontem à noite e tomaram um chazinho quentinho. Tenho uma proposta mais singela para estes posts melodiosos: tornar público o som que meus leigos ouvidos a-do-ram.

Mito do rock chileno e dona de um repertório com doses generosas de blues, a banda Los Tres produziu diversos álbuns ao longo dos anos 90. Os caras se separaram no ano 2000, mas no ano passado houve um reencontro que culminou na gravação de um um Greatest Hits. Vale a pena uma passada no
site oficial da banda para conferir a trajetória e um pouco da história de cada um dos quatro integrante - a propósito, é daqueles bacanas que deixam o visitante escutar um trechinho de cada música. Pra quem está pensando agora que eu não sei fazer contas e por isso não segui carreira na engenharia, a resposta é: los três eram quatro, sim. Pelo que sei, precisaram de mais um integrante, mas o nome já estava na boca do povo.


Escucha!

Você é do tipo que tem uma preguiçona danada até de pensar no que eles podem ter produzido em uma década inteira? Então baixe apenas o álbum Unplugged (1995), uma gravação ao vivo para a MTV, que conta com as "mais tocadas": Pajaros de Fuego, Un Amor Violento, He Barrido el Sol, Dejate Caer, Traje Desastre, entre outras. Estando disposto a me dar algum crédito, aproveita e lota o seu HD com os álbuns Los Tres (1991) e No Sabes qué desperdicio Tengo en el Alma (1993).

terça-feira, agosto 21, 2007

Ojos de Brujo


Continuarei o meu momento sem-vergonha iniciado no post sobre o Ludov - no qual expus sem pudor parte do meu gosto musical. Dou ênfase às palavras "sem-vergonha" e "pudor" porque só agora vejo o quanto pra mim é complicado discorrer sobre o que realmente gosta, ao passo que soaria muito natural falar se o caso fosse desgostar. Difícil é pôr à vista a questão: complicar-se todo explicando o porquê do gostar correndo o risco de virar alvo de zombaria ou levar um rótulo de brinde. Opto pelo risco e logo me percebo uma péssima defensora de opinião. E é sem intenção de ataque ou defesa de opinião que quero que as minhas palavras sejam tomada neste blog. Considerem-nas lançadas, somente.

Voltando ao gosto exposto, PRECISO falar sobre Ojos de Brujo. Formada na Espanha, a banda passeia com o flamenco em distintos territórios da música, como a eletrônica e hip hop, sem perder, porém, a emoção característica da música flamenca. Foi paixão à primeira escuta, fascínio total, com direito ao prestígio (ou não?) de ganhar a comunidade orkutiana "Chega de escutar Ojos de Brujo" (numa época em que o orkut também era a grande novidade e qualquer motivo era suficiente para uma boa palhaçada virtual - vide a comunidade dos "Águias", certo Paulo, Thais?).

Aos curiosos, o
novo site do grupo possui fotos, biografia e todo o restante que deve possuir uma página de divulgação na internet, mas fica devendo em mp3 para download ou link para escuta. Nada que um E-mule não resolva. Navegando por lá, encontrei um diário de bordo, algo como um blog das turnês (também típico de site de artista) só que com o diferencial de ter na coluna “Friends" os sites de Paco de Lucia e Ben Harper ao lado de Tom Zé, Lenine, Mutantes, Nação Zumbi e Naná Vasconcelos. Tirando pela seleta lista de amigos e influências musicais dos diversos gêneros, não é de espantar que a mistura flamenca de Ojos de Brujo seja tão emocionante.

Para quem ainda consegue aceitar a combinação “sugestão da sofia” e “E-mule”, fique com os álbuns Vengue (2001) e Bari (2005).

Buen provecho!
;-)

segunda-feira, agosto 20, 2007

Ludov

Gosto de verdade dessa banda (hehe...digam o que quiserem...rs). O Teo também adora, tanto que elegeu "Dorme em paz" como a canção de ninar mais votada nos últimos meses entre os garotos antenados de quatro anos (enquete caseira mesmo). Até instituiu umas adaptações exaltadas à letra: "Feche os olhos e as janelas, deixe o sono te guiar / Ser donzela ou matar mil dragões (MATAR MIL DRAGÕES!) / Ter cautela ou seguir furacões (SEGUIR FURACÕES, SEGUIR FURACÕES!!)".

Para quem não conhece, Ludov é uma banda paulista de rock alternativo (que medo tenho dessas definições estilísticas!!) que caiu no gosto da MTV nos últimos tempos. Até por isso sua aceitação é um tanto polêmica. Mas como lá em casa só pega o danado do canal nas noites em que a lua está totalmente alinhada à constelação de Órion, eu continuo gostando bastante do som. Acho fantástico o disco "O Exercício das Pequenas Coisas"; ouvi pouco do último, "Disco Paralelo". Se você já ouviu, o espaço dos comentários está disponível para elogios, criticas ou xingamentos. Se quer me dizer que em breve estarei ouvindo KLB (hehehe), garanto que esse dia não virá, mas confesso que tenho um tanto de mp3 do Luis Miguel no computador. Se você é pai, mãe, avó ou de alguma ong destinada aos cuidados com o gosto musical infantil, temo que os conselhos tenham chegado tarde demais, o Teo só quer saber das classificadas por ele como "música violenta".

Ah, peço desculpas pela demora em postar. Prometo que em breve postarei algo mais típico, com conflitos, confusões mentais e uma pitada de sarcasmo pra apimentar a página.

segunda-feira, julho 23, 2007

do mais feio

Esse personagem que crio agora não passa de ficção. De tão fictício, não se assemelha a nenhum de nós, nem mesmo a mim que agora conto a sua história e a leio simultaneamente. Nenhum de nós na vida real, na vida palpável e honrada que levamos, na vida digna da atenção alheia que temos, vida nossa inquestionável porque trabalhamos e geramos renda, vida esta que é merecedora de créditos porque aprendemos todas as suas regras desde muito pequeninos, nenhum de nós compara-se ao personagem dessa história. Ao contrário de nós que somos virtuosos e temos motivos para sermos autoconfiantes (para o que quer que seja), ao contrário de nós e nossa altivez autorizada, esse personagem vacila.
Tinha medo de formiga e por isso nunca colocou pés no chão sem chinelos ou meias. Um dia - parece até mentira - pensou uma hora e vinte se comia maçã ou salgado frito e interpretou a azia de depois como sinal da má decisão.
Mas não venho contabilizar aqui as vezes que esse personagem vacilou. Escrevo sobre ele só para massagear o nosso ego e justificar a nossa segurança.
Esse personagem não é como nós todos que desde cedo aprendemos a ter charme, ele é coisa ruim, não presta pra isso. O dia que quis cantar de galo na janela de uma moça deixou enrolar a língua numa crise da epilepsia que nunca tivera até então. De charme nunca tinha ouvido falar, nem nunca havia provado dele em boca alguma.
Ele, que é um coitado, já teve medo de formiga e quando superou não podia escolher entre comer fritura ou fruta, por toda a vida se complicou nas conquistas amorosas - como era justo que fosse com ele. Dava sempre um passo à frente combinado com dois atrás, como em uma dança acanhada e descompassada. Tinha sete anos quando se percebeu diferente dos outros meninos. Encruado. Havia pensado tanto na coragem que deveria ter ao se aproximar de alguém que a força lhe fugira pra sempre. Os mais velhos diagnosticaram espinhela caída como a razão do problema de auto-estima, defeito que levou consigo até o túmulo, assim como o ar de homem intocado - mau agouro que família fez questão de enterrar na cova mais funda para não contaminar nenhum menino novo.
Ano passado vi o enterro do pobre fictício. Sem pompa, sem charme, sem graça, como se já não fosse hora.

Sobramos em nosso orgulho e alta estima, charme, certezas da vida e trabalho decente nosso (comemoremos juntos!)...até apontarmos outro dele entre...nós. Um inseguro, frágil, feio. Um vivo.


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sábado, julho 14, 2007

em coqueiral


E coqueiral, já que escapuliu escorregadio no post passado.

Nem necessário um berro tão alto pra ser ouvido em coqueiral. Um burburinho qualquer, comentário pequeno, uma história contada ao pé do ouvido pode ultrapassar paredes, num pulo percorrer etapas. Um cochicho feito no menor volume ganha corpo em segundos, e ganha corpos, toma pra si os corpos que aqui existem. Se família em festa, se casais em crise, se amor latente em alto e bom som, não faz diferença, há sempre uma vida em trânsito, passando de mão em mão, de uma boca, outra boca, pés e solas dos sapatos. O lugar é pura vida, um amontoado de muita vida, um coração que lateja com pressa e força.

Como é possível tamanha indiferença no reduto pulsante da vida?
Repare ao seu redor, existem ouvidos e ouvidos e nem todos conseguem encontrar a freqüência em que estão os pedidos de socorro lançados no ar.

Vale um gritinho de nada pra soar no pico do bairro pois até os picos daqui são rasteiros. O lugar cresceu horizontalmente, nada é muito alto. Esticou-se hoo/rii/zon/taaal/men/teeee, deitado em blocos, desse jeito em/e/ta/pas/etapas/e/tapas. Verticalmente modesto. Os coqueiros são os únicos que tocam o céu. Sorte a deles, nós ficamos aqui por baixo esbarrando uns nos outros, incomodados em compartilhar a rotina como criança que não quer dividir o doce.

E rotina sabe-se doce? Nos misturamos. A prostituta, a fofoqueira, gente de boa índole, o cachaceiro da entrada, os senhores que jogam baralho, a criança ainda de pipa e bola em terreno de areia, a dona-de-casa infeliz, o travesti, o marido traído, nos misturamos. Somos todos maridos traídos, prostitutas, senhores do baralho, fofoqueiras, travestis, cachaceiros da entrada, donas-de-casa infelizes, crianças ainda de pipa e bola em terreno de areia. Por aqui somos a mesma coisa, somos gente de boa índole, eu, você que me lê de longe também é, aquele que nem se dá conta de que é igual, somos da mesma coisa, sei que somos e por que então não esqueço essa aflição?


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quarta-feira, julho 11, 2007

o pós-guerra

Anteontem despertei do período de letargia induzida em que estive desde a última guerra. Foi bom, acordei bem, acho até que feliz, aliviada. A adrenalina das bombas conceituais da luta não-armada serviu pra animar o instinto que andava murcho ― não conter choro, responder sem pensar, criticar também, falar alto fazendo as ondas sonoras atingirem o pico de coqueiral. Esquecer que preciso ser forte sempre, usar da licença poética feminina que ainda existe grande aqui. Sem culpa.

Com culpa, considerável e inevitável culpa. A apatia do pós-guerra se alimenta aí.

Um soar de cornetas anunciou o fim da batalha. Temporário, sem dúvida, se não pra nós, temporário para a maioria dos outros clãs comuns que seguem na história conflitando os seus ideais.

terça-feira, julho 03, 2007

prestação de contas

Prestando contas ao par de leitores do blog: em breve postarei mais bobagens. Escreverei assim que eu acordar do meu sono de quatro dias e quatro noites ininterruptas, aquele de quando vou a uma guerra civil.

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terça-feira, junho 26, 2007

mais do caio

Parte I
E falando em caio, fui atendida por uma mocinha ontem na Bienal do Livro que gostava tanto dele que atribuiu uns apelidos carinhosos aos títulos do autor:
- Você tem algo do caio fernando aí?
- Hummm...sim, três títulos. Orelhas Negras e...
- Orelhas? Ovelhas, certo?
- Foi isso que eu disse, Ovelhas.
- Você disse...Ovelhas?
- Sim, eu disse Ovelhas.
- Ok, desculpa. Eu entendi Orelhas Negras, desculpa.
- Tenho também Fragmentos e o último é O Avô Apunhalado...
- Avô? Não, Ovo Apunha...mmm...bom, deixa pra lá.

No fim das contas matou o avô sem dó nem piedade. Depois de esconder as orelhas, achei melhor manter também a boca bem fechada.


Parte II
Mudando de pau pra cavaco ― nem tanto, já que dizia de caio, suas orelhas negras e sigo falando de livros ― adianto que não tenho a menor intenção de dar um tom sombrio ou vitimado a isso que direi agora. O que me passa, quero falar, quero contar o que me intriga, o que me passa é que a cada livro que leio ou filme que assisto me torno ainda mais distante ― estranha, deslocada. Cada álbum que ouço ou cada história de esquina e ponto de ônibus me fazem dar um passo mais largo em direção a um mundo que ainda não sei compartilhar. Fiquei oca, como uma árvore podre.
(Peço que desliguem a melodia melancólica que acompanha essas minhas palavras. Não sou pessoa triste, só oca, não venho escandalizar possível visitante do blog).
Oca. Oca, como quando colocamos as unhas na casca marrom e grossa de uma velha árvore, marcada não se sabe se pelo tempo ou outro, ainda úmida, algum vigor aparente e nos surpreende com um grande vazio do lado de dentro, como se estivesse apodrecendo aos poucos sem se deixar notar, respirando por obrigação, persistindo ao tempo porque seu papel de árvore oca é manter-se ali pelo tempo que puder. Estou oca, esvaziada de algum teor para dividir, compartilhando nada todo o tempo. Oca. Passo de raspão, tangenciando qualquer grupo, mas não importa como seja, não passa de uma relação oca.
Digo, com o direito de dizer pois não fará mal a pessoa alguma ler isso: perdi tão cedo o jeito de agradar! E agora ando oca, de um mundo oco onde ficam os livros que li, poucas pessoas, filmes, imagens remotas, algo de paixão e histórias de esquina que me enfiam ainda mais no oco desse mundo que aqui no blog eu deixo.

sexta-feira, junho 22, 2007

caio

Fico daqui remoendo o tempo, aproveitando pra nada grandioso, as pernas pra baixo da mesa e os braços em noventa graus dia após dia, como já havia denunciado antes. Eis que, em intervalo não autorizado, internet condenável, uma carta do caio fernando abreu me vence em nó na garganta. E pensar que há dois anos mal o conhecia! Salve aquele que um dia despertou a minha curiosidade para o caio - te devo um bom dia da minha vida!
Leitura rasteira mas água nos olhos, 16h35, hora de ir. Quem tiver um pouco de paz, que guarde para si. O pouco do caio hoje roubou toda a minha e eu tanto gosto disso...

“[...] pode enganar a alguns, mas não enganaria a si e, portanto, não preencheria esse oco. [...] O que tem é uma questão de honestidade básica. [...] Então vai, remexe fundo, como diz o poeta gaúcho, Gabriel de Britto Velho, ‘apaga o cigarro no peito / diz pra ti o que não gostas de ouvir / diz tudo’. [...] Tira sangue com as unhas. E não importa a forma, não importa a ‘função social’, nem nada, não importa que, a princípio, seja apenas uma espécie de auto-exorcismo. Mas tem que sangrar a-bun-dan-te-men-te. Você não está com medo dessa entrega? Porque dói, dói, dói. É de uma solidão assustadora. A única recompensa é aquilo que Laing diz que é a única coisa que pode nos salvar da loucura, do suicídio, da auto-anulação: um sentimento de glória interior”.

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quinta-feira, junho 21, 2007

sábados, cores, domingos

Pensando em derramar mais tinta pela casa no fim de semana.
Da última investida na pintura ainda tenhos vestígio no velho taco do piso. Faltou também pintar uma porta ou outra, paredes dos quartos, janelas.

Nessas experiências bizarras em decoração, eu e meu fiel ajudante mirim gastamos um bom tempo do último domingo tentando instalar a fotografia do sebastião salgado, a tapeçaria que trouxe do equador, o pratinho de cholas do peru, coisas que mantenho em cima do armário, sempre aguardando o dia em que a casa será nossa de verdade. Os boletos das prestações mensais à cooperativa habitacional ainda não me convenceram disso. É um quê de não-faço-idéia-do-que-falta, provavelmente uma questão de espaço, um querer largar bagunça por onde eu passe sem que ela se remova automaticamente, uma vontade de não ouvir a televisão ligada e dar lugar ao toca-discos que agora padece num canto da cozinha. Desistimos dessa vez, tentarei de novo no fim de semana.

Trocar todos de quarto por lá é idéia genial, talvez também comece isso no fim de semana. Vontade de dar um ao teo, para que ele possa se organizar como queira, para que tenha seus livros ao alcance. Para que nós dois tenhamos algum espaço.

Pensei agora em tirar o cinza da cortina, como se assim ganhasse um pouco mais da luz que me falta.

Esperando mais do que deveria do fim de semana.
Outra vez.

domingo, junho 17, 2007

Só um desabafo

Não esperem que eu opte pelo normal. Nada pessoal, isso é só porque não conheci o que é normal e ainda dou um boi pelo estranho. Mas me deixem usar do convencional quando eu quiser sem ganhar um olhar crítico que grita comigo e me deixa surda e me deixa cega. Permitam que eu pareça normal e não exijam estranhezas de mim o tempo todo, mas me deixem transbordar da minha esquisitice voluntária.

Esqueçam o que eu gostava antes. Eu mesma não me lembro mais e o que me vem à mente já se misturou com as coisas do depois. E se eu disser que gosto disso, daquilo, beltrano ou broto de goiaba, rogo para que não digam que antes eu não gostava. Nada pessoal, ao contrário, é preocupação em poupar os seus esforços porque corro o risco de amanhã já desgostar disso, daquilo, beltrano ou broto de goiaba.

Permitam que eu me perfume, arrume, crie expectativas, use brinco e batom, permitam que eu seja, quando eu quiser, uma mulher que quer se ver bonita. Deixem que a minha cara lavada e roupa em desalinho os encontre nos demais dias. Posso jurar que continuo me valorizando nesses dias também e não há motivos para alarde.

Aproveitando o ensejo, por favor, não queiram a minha simpatia matinal diária. Acreditem, não é mesmo pessoal, só não quero ser obrigada a isso por querer dar sempre os meus sorrisos sinceros. Os meus da manhã nem sempre são assim e eu prefiro esperar que madurem.

Por fim, não esperem que exista um motivo atual concreto para redigir tantos pedidos. É só um desabafo, sem expectativas. Podem deixar pra atender no Natal.

sexta-feira, junho 15, 2007

fabulas do teo II

Mapa empoeirado recortado de livros de primeiro grau; tesoura sem ponta que é pra não machucar a mão menor; canetinhas, várias cores, sem tinta ou borrando a folha, algumas ainda boas; o traço vermelho desenha o roteiro, vai de um lugar a outro unindo pontos, passa molhado pelo atlântico, se enche de desejo de saudar o pacífico mas encontra antes consigo confundindo a trilha com as suas vontades, num pra lá e pra cá que é sempre mais pra lá do que pra cá, zi-gue-za-gue-an-do-tudo-até-sair. Do papel.
Uma pausa: biscoito de polvilho, leite no copo de bico e colheradas de achocolatado em pó.
Farelo no mapa mais parece neve.

Manga da camisa e o frio e a neve vão ao chão; barquinho de jornal feito da impressão da manhã é coisa bem miúda; pouca bagagem mesmo, só o essencial para a viagem como a caneta-lança e o cavalo roubado de um jogo de xadrez; segue por terra porque barco tem roda e tem asa; a Amazônia cruza voando para ver do topo do mundo os pés de vida mais viva.

Quer andar de trem, volta pra casa; um pouco da terra de cada lugar e polvilho na roupa ; bons bocejos, tinta nas unhas; ainda cheiro de leite.

quarta-feira, junho 13, 2007

Depois do 12 de junho...

É um grande alívio escrever agora isenta do possível mal-estar que o dia de ontem costuma provocar nos despreparados. Mesmo a parcela mais esclarecida da população, capaz de perceber a estratégia mercadólogica para tomar as suadas moedas dos fundos dos bolsos, também pode ser vítima do incômodo do dia. De forma presunçosa, penso que estou nesse grupo e, assim como outros esclarecidos, também estive passível de ter a minha paz molestada pelas manifestações do dia: casais saindo pelos ladrões, perguntas inconvenientes sobre o presente do namorado (quando não marido!), frases de efeito espalhadas em outdoors, revistas, sites de notícia, panfletos nas ruas. Submetida ao clima de desconforto, à espreita de qualquer abordagem indiscreta, devo reconhecer que tive um dia tranquilo e proveitoso, decididamente melhor do que nos últimos anos em que estive como participante na caça aos mimos.
No papel exclusivo de observadora pude perceber que a mobilização em torno do amor, ao contrário do que se pensa, é bem menos assustadora para os solteiros, em compensação pode tornar-se uma importuna pedra nos sapatos dos namorados em crise ou dos meio-namorados (aquela gente que está mas não está, é mas não existe). Vi dos dois tipos ontem e a apreensão era nítida em ambos os casos. No primeiro, os personagens de um namoro de três anos e meio conseguia suar frio, chorar e rir ao mesmo tempo, oscilando entre o término, a comemoração do dia e o crime passional. Não muito diferente, a situação dos atores de um meio-namoro era pacífica, porém não menos densa, neste caso carregada de ansiedade quanto a um singelo contato, ponderando toda atitude para não soar sugestiva o suficiente para intimidar o outro, ou ainda pior, gélida e abnegada.
Pus em risco o humor e arrisquei uma ida ao shopping. Logo na primeira loja, uma moça escrevia versinhos sentada no chão atrás do caixa. Lia baixinho para a amiga que computava as minhas compras, como se o destino da composição fosse a bolsa de algum dos colegas de trabalho que se encarregavam das compras de outros clientes. Pensei que não queria estar na pele do sujeito que iria receber o bilhete, possivelmente porque o conteúdo me parecia bastante piegas. Pensei que seria incrível colocar a mão no bolso e encontrar o tal bilhete mal escrito. Pensei que tudo seria imaginação minha e, quem sabe, os versos não seriam surpresa, mas só uma burocracia da data. Pensei, por fim, que voltar pra casa e deixá-los livres do meu olhar curioso seria o melhor a fazer naquela noite.

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domingo, junho 10, 2007

o relativismo da solidão

Certa vez ouvia as lamentações de um amigo que se sentia muito sozinho. Dizia na conversa que gostava de morar só, mas odiava passar o fim de semana inteiro sem receber uma ligação. Eu escutava com calma, só não entendia como alguém como ele, repleto das qualidades que tornam uma pessoa interessante, pudesse sentir tão perto a solidão. Contestei o papo, não para fazer o meu papel de confidente, mas porque sua queixa me parecia inadmissível - era talentoso, intelingente, agradável, bonito e quase sempre cheio de 'pretendentes'. Como resposta, soltou uma frase que nunca saiu da minha cabeça: "você que não pode, tem ao teo, nunca será sozinha". O moço tinha razão.


quinta-feira, junho 07, 2007

uma parte de mim

Enfim tomei minha decisão e abandonei a monografia já qualificada sobre a Telesur. Claro que pesei todos os lados e importunei o sossego de muitos com o assunto, como já era esperado. Meu processo decisório é trabalhoso, mas devo confessar que tirei uma bigorna das costas!

Um texto da monografia, no entanto, gostaria de deixar publicado aqui. O poema é de Ferreira Gullar, cantado por Fagner, Mercedes Sosa e Joan Manuel no disco de nome “Traduzir-se”:

Uma parte de mim é todo mundo
Outra parte é ninguém, fundo sem fundo

Uma parte de mim é multidão
Outra parte estranheza e solidão

Uma parte de mim pesa, pondera
Outra parte delira

Uma parte de mim almoça e janta
Outra parte se espanta

Uma parte de mim é permanente
Outra parte se sabe de repente

Uma parte de mim é só vertigem
Outra parte linguagem

Traduzir uma parte na outra parte
Que é uma questão de linguagem
Será arte?

Agora me questiono se escolhi o texto por representar os estratos culturais latino-americanos em colisão permanente ou se pensava em poetizar o estigma de confusa que venho carregando...hehe



quarta-feira, junho 06, 2007

ser sui generis

Fiquei cismada com a qualificação de "sui generis" que recebi dias atrás. Ainda insisti na dúvida, que persistiu ao aceno com a cabeça confirmando me achar "sui generis". Que bom - pensei bem rápido - me parece excelente ser considerada uma pessoa peculiar. O alívio com a idéia de agradar durou pouco. Continuo sem entender em que sentido existe o meu "sui generis".

Minha dúvida não parece assim tão absurda se investigarmos nas origens da querida língua que usamos. A expressão latina "sui generis" significa "do seu próprio genêro" e não é mesmo das mais claras. Começou a ser usada na classificações científicas para definir aquilo que era único em seu genêro (plantas, rochas, doenças). Aos poucos, porém, a expressão saiu dos laboratórios direto para as ruas, onde foi transformada em sinônimo de tudo o que era considerado incomum. Não só aquilo que atraía pela singularidade passou a ser "sui generis", mas também o que era nitidamente esquisito.

Se o meu "sui generis" era para ser atraente ou estranhíssimo, ainda não sei, mas tenho pensado na idéia de descobrir.

;)

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segunda-feira, junho 04, 2007

fábulas do teo

- Na televisão o chips azul faz soltar gelo pelo boca, por que comigo não funciona?
- Esse deve estar com defeito, teo. (crec) Também não deu certo pra mim.

Tem hora que não sei como consegui viver sem isso.

domingo, junho 03, 2007

sobre matrimônios e precipícios

Mais amigos com casamento marcado. Claro, não faria aqui qualquer homenagem a eles, afinal, é um blog tão particular que não possui qualquer leitor. Uma delas já se casa na próxima sexta-feira, o outro em dezembro. Nas poucas (mas longas) conversas que temos nos últimos tempos, não consigo deixar de tentar perceber as emoções que invadem alguém com data marcada para mudar de vida. As questões sobre a nova casa estão quase sempre em todas as conversas, mas o assunto recordista, aquele presente até nas tentativas de descanso, é sempre a festa. Vejo que comemorar é importante para quase todos os noivos. Para esses amigos, ao menos, é essencial. A festa, a casa, o músico, o buffet, tudo isso bem organizado para proporcionar uma entrada alegre na "nova vida" têm, provavelmente, sua importância. Eu, porém, não consigo deixar de ficar intrigada com a pouca preocupação desses casais quanto ao que espera por eles em uma rotina compartilhada. Entregam-se vendados, apaixonadamente cegos. Se reflito sobre isso, minha grande preocupação nem é com eles, mas comigo: esqueci como é quebrar a cara. Não conseguiria hoje deixar de questionar se é a pessoa certa, se seriam pacientes o bastante, se seria prazeroso acordar na madrugada só para ouvir o outro falar uma bobagem boa qualquer. Sei que são essas as dúvidas que trazem charme para o relacionamento, mas arriscar, arriscar é tão arriscado, já tive essa coragem, acho que a perdi no meio do caminho.

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Queria esclarecer a tal particularidade deste blog. Seu grande mérito é organizar as minhas divagações - acho que não tem dado muito certo isso, percebam (hehe). Tudo bem, confesso que é interessante a idéia de, em qualquer época, não necessariamente agora, ter um tímido leitor, daquele que participa sem interferir.

Romantismo ou prepotência pura?