quinta-feira, dezembro 11, 2008

Tempo de um beijo só

A luz do sol surgia, contrariando todos os desejos, sem conseguir dissipá-los. Do rosto mais claro pela manhã, era ela: mais moça, sabida de astrologia, um pouco também de fotografia; mais boba, mal escondia a ansiedade. Dos olhos confusos pela hora, estava ele: mais vivo, cabelo longo desalinhado pelo cansaço, sabia de roteiro de cinema ou de turismo; fios brancos na cabeça envolta por idéias pudicas e outras nem tanto.

Diferentes os dois, é provável, mas se ainda estavam ali juntos, àquela altura da hora, o tempo brigando com a conversa sem conseguir inibi-la! Sobre a copa úmida da castanheira que os abrigava só a luz de um sol recente, enquanto todo o chão da praça decorava-se das silhuetas dela, das folhas, dele, dos pássaros.

Na noite de antes daquela manhã, haviam se entreolhado desde o princípio: ela reparava no jeito meio sem jeito dele de dançar, ele não levava relógio; ela preocupava-se com as horas, mas ele a percebia dançando sozinha uma música alta demais na hora exata da noite. Teriam conversas tão altas e tão perto, não tinha outro jeito senão tão junto; seus rostos escurecidos ora clareando-se pelas luzes negras do lugar; os olhos, certamente, luminosos. Desde este instante falariam sobre o horário da noite, a música, a vida em geral, mas especialmente sobre a possibilidade de continuarem falando e olhando e assim tão junto e tão perto por algum tempo mais.

De vestido curto nem largo nem justo modelagem retrô e faixa nos cabelos, estava ela; ele, óculos de grau e calça com cinto metalizado estilo undergroud. Diferentes os dois, é possível, só que de lá sairiam juntos, não tinha outro jeito senão tão juntos, ou do contrário haveria o risco de perderem a hora certa daquela noite.

Do carro, um modelo nem novo nem velho azul-marinho como aquela madrugada, os dois passeariam cidade afora, apesar das diferenças entre eles, apesar do tempo: para início, cairiam num reduto de música duvidosa, mas a música, assim como a hora, havia perdido a importância; cortariam muitas ruas silenciosas, vez divagando histórias sobre a cidade adormecida, vez tão mudos quanto ela; até encontrarem abrigo no bairro mais boêmio, onde cada vez mais surgiriam histórias sobre a cidade ou sobre a vida pra contar — o universo, ela viria com essas definições sem sentido pra ele, seria o universo contribuindo para especializar o pouco tempo juntos.

Ali o dia viria regado às conversas mais íntimas, separações, profissões, desilusões, confissões e cerveja bem gelada. A luz, aos poucos tomando o espaço, enfrentaria os desejos, e os dois, já resignados com a hora, sairiam à praça a apreciar os pássaros que se multiplicavam com o raiar do sol. Nesta hora exata — o sol iluminando os rostos e a copa da castanheira desenhando no chão da praça contornos de folhas e corpos e pássaros —, nesta hora exata os dois já se conheciam tanto apesar do tempo e tão pouco pelas diferenças que ficou impossível de segurar. O beijo, que duraria só o tempo de o relógio rodar novamente, deixando a hora tão pequena que não houve jeito de.

(eu mesma, vulgo Agnieska)

Sem comentários: