sexta-feira, junho 26, 2009

Um Conto de Ônibus

Teve uma noite que preferiu dispensar a carona habitual e tomar um ônibus. Precisava ver gente, ouvir outras vozes, fazia tempo que não fazia absolutamente nada diferente. Era tudo do mesmo jeito, casa, carona, aula, cabelo, conversa, banho, sem tirar nem pôr coisa nenhuma, numa rotina inteiramente adequada ao padrão de vida e idade atuais. Via-se: uma avalanche de percepções que tão mal se ajustava ao cotidiano encaixotado em que estavam trabalho, sapato, tempo, leitura e afago seus; valores de ponta-cabeça; emoções contraditórias; era, sim, um grande amontoado de substantivos mais-que-abstratos. A solução para a dispersão, muitas vezes, encontrava na gente aparentemente menos atordoada, com preocupações supostamente condizentes com os seus cotidianos. A verdade é que não fazia bem a ela ver os problemas alheios, mas era um tratamento de choque indiscutível, algo como um puxão de orelhas bem dado ou como sentir amarrar-se a um peso que faria suas pernas tocarem outra vez o chão. Não que não tivesse suas próprias preocupações, tinha as contas do mês e as aulas de inglês, o cano quebrado no banheiro, a linha de telefone cortada quase toda vez e a chave de casa perdida. Mas nem a festa para a qual não havia sido convidada, nem o cobrador do aluguel, nem a despensa vazia, o cansaço, o pouco dinheiro, nada era suficiente para fazer ater-se aos problemas reais e nisso criava motivos para substituí-los: quando o cachorro morreu, aprendeu a fazer salgadinhos vegetarianos como ninguém; começou a estudar hebraico via internet assim que pifou o motor da máquina de lavar roupas; nos dias de trabalho chato conseguia pensar nos detalhes da viagem que faria um dia, sempre sem data prevista; e quando o namorado foi embora, preferiu fotografar.

Precisava era de um ônibus empanturrado de anseios comuns, gente cansada e suor.

Deu sorte que parou o mais cheio. Alguém logo se ofereceu para segurar a bolsa, gentileza comum entre passageiros de ônibus que para ela soou mais como um termo mudo de cumplicidade: esteja à vontade para observar. E assim esteve até seu cúmplice silencioso descer do ônibus, dando-lhe o lugar e um pouco mais de espaço naquela noite. Sentou-se. Ao seu lado, um rapaz com menos de vinte e sete, estudante talvez porque levava uma mochila e um ar despojado que se manifestava na combinação barba rala e camiseta estampada com motivos indianos. Nos olhos, no entanto, ele se mostrava sério, mas podia ser que estivesse na ala dos cansados e indispostos, assim como a maioria que ali estava, seguindo apático durante a viagem até que. Uma moça entrou, vestindo o uniforme da guarda da cidade, paradoxalmente pequena e frágil, dona de um loiro no cabelo que gritava com as raízes escuras expostas. Esta também levava uma mochila nas costas, porém a dela não lhe atribuía um ar jovial, mas se impunha com um cacetete que mal cabia inteiro dentro da bolsa.

Dispuseram-se, o rapaz da camisa indiana ao lado da janela, ela que havia dispensado a carona na cadeira do corredor e a moça guarda da cidade em pé bem na frente. Nessa viagem ela esteve no centro, separando os dois corpos, um pouco desconfortável, sem, porém, pensar em quão cômoda teria sido a sua carona. Deixou de existir a partir do primeiro encontro entre os olhos do rapaz da camisa de motivos indianos e os da moça guarda municipal.

Levantou da cadeira sem que rapaz nem moça percebessem sua ausência ou presença, puxou a cordinha, desceu do ônibus já em frente à casa. Da rua podia ver a cor azul da televisão tomando toda a sala. Ali se lembrou do banho, do tempo, do afago, do telefone cortado, dos olhos que se encontravam há pouco e deu sinal para outro ônibus.

(Agnieska)

Sem comentários: