quarta-feira, janeiro 25, 2006

Boa Vista hasta...Caracas

Estendemos nossa passagem por Boa Vista em dois dias. A dificuldade de conseguir uma hospedagem em Caracas já atormentava desde entao. Optamos por chegar na cidade o mais próximo do dia 23, quando os acampamentos estariam abertos. Saímos em 21 de Boa Vista, perto de 10 horas, em um táxi lotacao que faz a viagem até Santa Elena de Uairén, primeira cidade da Venezuela. Aqui quase todos os táxis sao do tipo "lotacao", ou seja, têm uma rota definida e pára buscando mais pessoas (a propósito, parece que Boa Vista tem muito mais táxi lotacao do que carro de morador). Fizemos a viagem de duas horas até a fronteira com um casal de garimpeiros, que migravam para a Venezuela atrás da promessa de enriquecer com as minas de diamante e ouro. Durante toda a viagem, escutamos muitas recomendacoes de como se portar com os venezuelanos, observacoes sobre os perigos de Caracas, e sobre quais os cuidados deveríamos ter após atravessar a fronteira. A antipatia entre brasileiros e venezuelanos da regiao da fronteira é visivelmente grande. Motivo: minas de ouro. Venezuelano nao concorda em compartilhar suas minas com brasileiro. O taxista era o mais assustado da vaigem, era a segunda vez que fazia a rota e as recomendações do casal de garimpeiros o deixavam ainda mais tenso. Deixamos o casal ainda em território brasileiro, onde cambiamos o dinheiro no meio da rua. São dezenas de cambista gritando, como em uma feira de dinheiro: bolívar, real, venga, real, bolívar! Conseguimos um real por mil bolívares, um bom preco, já que sabíamos que outros amigos haviam trocado por 980. Seguimos para a Aduana Ecológica da Venezuela (ainda nao descobrimos porque é ecológica...rs) para carimbar os passaportes, onde esperamos por uma hora. O taxista, aflito com o tempo, pede para seguir viagem e abastecer o carro em Santa Elena, já que o posto de gasolina fecha às 17h para os brasileiros. Para estes táxis que fazem uma viagem de mais de duas horas por cem reais, a grande recompensa é encher o tanque do carro na Venezuela, onde a gasolina custa R$ 0.07. Demos permissao para que fosse abastacer e retornasse com nossas bagagens. Na hora, me pareceu muito normal esse consentimento, mas depois me desesperei. Após o carimbo para entrar no país, aguardamos por cerca de uma hora e meia sentadas na fronteira entre os dois países, e o taxista nao retornava. Eu chorava a certeza de ter perdido as bagagens para um grupo de socialista venezuelanos, que alegavam que a fila do único posto de abastecimento da venezuela era monstruosa. Ao mesmo tempo, Juliana contava o que acontecia para o exército da fronteira, que em uma fracao de segundos localizaram o taxista ainda na fila gigantesca do posto de gasolina. O taxista brasileiro, antes cauteloso com os venezuelanos, chegou onde estávamos amendrontado! Por fim, rimos juntos do acontecido. Na rodoviária de Santa Elena, as passagens sao negociáveis aos berros pelo atendente da Viacao Los Llanos, também como em uma feira. Para um mesmo destino, valores absurdamente diferentes. O trajeto para Caracas, usando uma frase já dita por um amigo que fizemos no ônibus, é "a viagem mais misteriosa" que fizemos na vida. De Santa Elena até Caracas foram seis paradas do exército, vasculhando, revistando a documentacao de todos os passageiros. E o mais intrigante é que em alguns trechos tínhamos que manter as cortinas das janelas do onibus todas fechadas, uma fresta sequer e lá vinha o motorista fechar. Tivemos a certeza: estarmos em uma ditadura.

1 comentário:

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