Esse personagem que crio agora não passa de ficção. De tão fictício, não se assemelha a nenhum de nós, nem mesmo a mim que agora conto a sua história e a leio simultaneamente. Nenhum de nós na vida real, na vida palpável e honrada que levamos, na vida digna da atenção alheia que temos, vida nossa inquestionável porque trabalhamos e geramos renda, vida esta que é merecedora de créditos porque aprendemos todas as suas regras desde muito pequeninos, nenhum de nós compara-se ao personagem dessa história. Ao contrário de nós que somos virtuosos e temos motivos para sermos autoconfiantes (para o que quer que seja), ao contrário de nós e nossa altivez autorizada, esse personagem vacila.
Tinha medo de formiga e por isso nunca colocou pés no chão sem chinelos ou meias. Um dia - parece até mentira - pensou uma hora e vinte se comia maçã ou salgado frito e interpretou a azia de depois como sinal da má decisão.
Mas não venho contabilizar aqui as vezes que esse personagem vacilou. Escrevo sobre ele só para massagear o nosso ego e justificar a nossa segurança.
Esse personagem não é como nós todos que desde cedo aprendemos a ter charme, ele é coisa ruim, não presta pra isso. O dia que quis cantar de galo na janela de uma moça deixou enrolar a língua numa crise da epilepsia que nunca tivera até então. De charme nunca tinha ouvido falar, nem nunca havia provado dele em boca alguma.
Ele, que é um coitado, já teve medo de formiga e quando superou não podia escolher entre comer fritura ou fruta, por toda a vida se complicou nas conquistas amorosas - como era justo que fosse com ele. Dava sempre um passo à frente combinado com dois atrás, como em uma dança acanhada e descompassada. Tinha sete anos quando se percebeu diferente dos outros meninos. Encruado. Havia pensado tanto na coragem que deveria ter ao se aproximar de alguém que a força lhe fugira pra sempre. Os mais velhos diagnosticaram espinhela caída como a razão do problema de auto-estima, defeito que levou consigo até o túmulo, assim como o ar de homem intocado - mau agouro que família fez questão de enterrar na cova mais funda para não contaminar nenhum menino novo.
Ano passado vi o enterro do pobre fictício. Sem pompa, sem charme, sem graça, como se já não fosse hora.
Sobramos em nosso orgulho e alta estima, charme, certezas da vida e trabalho decente nosso (comemoremos juntos!)...até apontarmos outro dele entre...nós. Um inseguro, frágil, feio. Um vivo.
www.fotolog.com/transitorio
segunda-feira, julho 23, 2007
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15 comentários:
vc anda lendo demais os livros do cara esquisito.
?!?!?!?!
"Dios Mio!"
Sofia, esse personagem criado por “voismicê” me incomodou muito... na verdade esperava um final feliz... como se o pobre acertasse na Mega-Sena... mas não o desgramado ainda resolve ter crises de epilepsia... que charmoso...
Fica aqui meu voto de protesto
fica aqui meu voto de protesto!
normal... os personagens não passam de criação do ser humano, algo tão complicadinho na ordem da criação universal... gostei do teu blog... vi você no blog do meu amigo Adilson...Posso me intrometer e pedir para trocarmos idéias também?
abraço
Álisson da Hora
Oi, Alisson. Fico feliz com a sua passagem por aqui! Como diria aquele que é amigo seu, você não se intrometeu de forma alguma, o barato dos lugares virtuais é a nossa livre passagem. Sem bem-vindo!
Passarei pelo seu blog, ok?
Um abraço
ops, é "seja bem-vindo", não "sem bem-vindo". nunca mais passaria no blog e a tonta aqui nem saberia o motivo...hehehe
:)
Sofis, esse cara é mt estranho!!
mas, acho que conheço uns estranhos assim ...
verdade, mais de um! vários ...
meo deos!
Oo
gosto de seus txtos ... mais dos textos q eu faço ligação com o seu dia a dia ... como, por exemplo, aquele que mencionava uma brincadeira com o Téo!
=)
bjus
Viu como a Thaís derrubou sua teoria do personagem "tão fictício que não se parece com nada real e sei lá o quê?" Tenho dois textos para recomendar, caso queira, cujas personagens em muito lembram o teu "feioso-com-medo-da-vida": "Segunda Vida", de Machado de Assis; "A Hora da Estrela", de Lispector. A propósito: esse esboço já virou conto em algum lugar?
adilson, vc é mesmo um danado. a verdade é que eu guardava este esboço em e-mail para um dia (sempre um dia) trabalhá-lo com um conto. sei lá, algo me dizia que o feioso poderia ficar bonito se eu tivesse tempo e ânimo de continuá-lo.
decidi expor, para ouvir as vaias e sugestoes. mas não por isso esqueci a idéia dar mais vida ao feio.
bj
E algo me diz que vai dar um senhor conto. Planeje as etapas, tome fôlego e, mãos à obra. Ah, a recepção inicial ao seu personagem é as primeiras delícias que um autor pode receber de sua criação, a exemplo dos que já postaram (mesmo que estejam todos querendo "final cor de rosa").
muito deveras complicado.
sou de todo, inda, contra longos posts.
Logo li corrido, novamente e notei a nova inatividade que será está Transitória???
simplesmente bello!!!
obrigada, camila. estou devendo postagens aqui, espero acertar essa conta no fim de semana. mas, desculpa perguntar, onde encontrou o blog? fico curiosa sempre.
um abraço!
ah, nem responda, já sei, foi no duda.
:)
bj
Olá Sofia.
Gostei muito de seu blog, mas só pude ler alguns textos por uma questão imanente a nossa frágil e efêmera existência: tempo.
Gosto de sua escrita. A leitura flui. Neste texto, as frases curtas, sem necessidade de muitos marcadores textuais, contribuiram para uma boa construção ficcional.
A sua textualidade me reportou ao poema de um grande poeta: Manuel Bandeira. Você já leu o poema "Poema tirado de uma notícia de jornal" ?
Neste, Bandeira, utilizando-se da prosa (por isso, poema prosa, como se fosse uma notícia de jornal), e versos curtos, sintéticos, faz uma gradação do destino do pesonagem João Gostoso.
"...
Bebeu
Cantou
Dançou
....e morreu afogado."
Vc também recorre à gradação, com frases sintéticas. No penúltimo parágrafo você escreve: "...sem pompa, sem charme, sem graça...". Já no parágrafo final você registra: "Um inseguro, frágio, feio. Um vivo."
No primeiro caso há uma gradação de qualidades exteriótipas e no último uma diminuição das forças subjetivas do personagem.
Nota-se que ocorre um certo paralelismo entre estas construções sintáticas, que termina com uma sentença contrastante do destino do cara esquisito: Um vivo, mas que morreu, ou um morto, mas que é um vivo. É a forma realçando o conteúdo: a demonstração da fragilidade humana.
Interessante que, fazendo um paralelo entre seu texto e o poema de Bandeira, ele termina sua gradação com a morte de João gostoso ("...morreu afogado.") e você termina, mesmo com a morte do esqusito, com a frase pírula: "Um vivo". Ambos morrem, ambos retratam o retratável, o óbvio...um ser...um homem.
Sofia, até mais.
Bjs.
Evandro, vejo que ganhei um leitor bem atencioso. Por essa eu não esperava: há pouco não tinha nem mesmo leitores...hehe. Que honra! :)
Obrigada pelos comentários. Vou seguir seu conselho e ler o poema - confesso que, assim como tantas outras coisas, ainda não li por preguiça, falta de tempo, comodismo mesmo.
Ah, e muito legal a sua análise. Eu não tinha parado para pensar o texto com tanto detalhe. Quase nunca páro, a não ser que sejam textos alheios...hehe
Um abraço!
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