O natal não significa muito. Digo isso com freqüência, sinto isso ainda mais. Logo é 20 e não me parece natal ou fim de ano. Nem mesmo vi enfeites, presépios, canções, uva passa, nozes. A véspera cai num domingo e como no ano anterior não terá gosto de chester, nem vozes que crescem à medida que se aproximam. O telefone talvez despreze temporariamente a campainha. A casa, pra não dizer que não está preparada, leva uma árvore seminua, mas reluzente. Esteve assim no último natal, em que a noite foi de espera por um vinho roubado de qualquer festa de família e surpresa. Engraçado ou trágico – definam – não será diferente este ano.
Afim de colocar tudo pra fora, a começar pelos móveis. Cama, armário quebrado, estante velha que poderia não estar mais ali, livros, pedaços de brinquedos, sofás. Percebo que nada que está ali é realmente meu ou parece comigo. Posso empilhar tudo do lado de fora, enquanto dentro a água lavaria todo o vestígio do que não me pertence. Escolheria então, um a um, o que é parte da minha vida. Cama, livros, brinquedos, roupas, música, gente. Quiçá seja a data apropriada para a limpeza. Incluo os rótulos na sacola de doações.

